Título: O Ministério da Saúde é o ministério da doença
Autor: Éboli, Evandro
Fonte: O Globo, 30/03/2008, O País, p. 15
No intervalo entre uma das muitas reuniões que fez no Rio de Janeiro sobre a epidemia da dengue, José Gomes Temporão admitiu: o Ministério da Saúde é o ministério da doença. Por telefone, explicou que sua pasta é uma das mais complexas da área social. Ele destacou na sua gestão o combate à bebida alcoólica, a discussão sobre a descriminalização do aborto, o projeto da fundação estatal, entre outros. Sobre a perda da CPMF e o atual surto da dengue, é direto: "São momentos que não me deixaram satisfeito".
Que balanço o senhor faz deste seu primeiro ano no ministério?
JOSÉ GOMES TEMPORÃO: É um dos ministérios mais complexos da área social. O Ministério da Saúde é o ministério da doença. Conseguimos dar um tom profissional à equipe. Conseguimos o respeito de setores até da oposição. O fato de eu ser vinculado à Fiocruz me ajudou. Conseguimos trazer de volta o financiamento da saúde, com a emenda 29, mas, com a perda da CPMF, voltamos à estaca zero.
O senhor chegou a dizer, um dia após a derrota da CPMF, que era um dia de luto para o país.
TEMPORÃO: E foi mesmo. A derrota da CPMF foi minha maior frustração. Iria permitir a aprovação da emenda e organizaria o sistema de saúde.
O senhor foi até o Congresso e não adiantou. Pesou o fato de não ser político e, sim, um técnico?
TEMPORÃO: Tenho certeza que não. Foi uma decisão política. Fiz todo aquele esforço, e foi em vão. Mas não influenciou o fato de eu ser um técnico. Qualquer um no meu lugar sofreria essa derrota, independentemente de ser político. Mas fizemos muita coisa boa nesse ano.
Por exemplo?
TEMPORÃO: A fundação estatal é um deles. Avançamos pouco no Congresso, com o projeto não andando como queríamos, mas avançamos muito nos estados. Bahia, Sergipe e o Rio aprovaram leis criando a fundação estatal. E tomamos muitas medidas na área de promoção da saúde, como a política da bebida alcoólica, desde a proibição da venda nas estradas e o projeto que muda o conceito de bebida para regulamentar a propaganda. Destaco também a proposta de acabar com os fumódromos e a licença compulsória do Efavirenz, medicamento importante para o tratamento da Aids. Além disso, a mortalidade infantil está em queda e a expectativa de vida do brasileiro está aumentando.
Quais os piores momentos?
TEMPORÃO: Diria que há momentos que não me deixaram satisfeitos. A questão da dengue, com essas mortes, a perda da CPMF e a meia vitória da fundação estatal, pelo fato de o projeto não estar andando como gostaria.
E essa discussão com o prefeito Cesar Maia?
TEMPORÃO: Lamento que ele tenha enveredado por uma linha de grosseria e de insultos. Tentar politizar e partidarizar a saúde acho de uma pobreza absoluta, uma mesquinharia. Não tem nada a ver com a minha biografia. (E.E.)