Título: A via expressa do crédito
Autor: Beck, Martha; Doca, Geralda
Fonte: O Globo, 30/03/2008, Rio, p. 33
DILEMA DO CONSUMO
Para especialistas, financiamento crescerá de 20% a 25% ao ano até 2012, de forma segura
Se a explosão do crédito preocupa o Banco Central (BC), por causa da pressão sobre os preços, o quadro ficará ainda mais complicado. Especialistas ouvidos pelo GLOBO acreditam que o crédito deverá continuar crescendo, de forma segura, a taxas entre 20% e 25% anuais até 2012, quando poderá atingir 68% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país). Atualmente, o crédito corresponde a 34,8% do PIB, devendo fechar 2008 em 40%.
Esse será o efeito de três fatores: crescimento econômico, aumento da renda e redução dos juros - que empurra os bancos para o financiamento como alternativa à perda de atratividade dos títulos públicos. Para economistas, interromper a ascensão do crédito para reduzir pressões inflacionárias seria um equívoco. Outros pontos, como os altos gastos do governo, deveriam ser o foco.
- Cortar a demanda não faz sentido, há muita gente fora do mercado de consumo. Vamos continuar crescendo com qualidade, pois os bancos são seletivos. Se o crescimento econômico for mantido nesse ritmo, aumentaremos o crédito à taxa de 25% ao ano, pelos próximos cinco anos- disse o vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos em Finanças (Anefac), Miguel de Oliveira.
Nas contas do Departamento Econômico do Bradesco, o crédito livre às pessoas físicas está crescendo a um ritmo anualizado de 33%, o mais forte desde os 36% de fevereiro de 2006. A qualidade continua elevada, com a inadimplência baixa, que há mais de seis meses varia entre 7% e 7,2%.
A economista Ana Carla Costa, da Tendências Consultoria, lembra que a tranqüilidade em relação à qualidade do crédito está associada, em grande parte, a medidas que o próprio governo tomou, como o crédito consignado e a venda de veículos por alienação fiduciária (em que o bem é garantia de pagamento). Isso explica a situação confortável dos bancos: para uma exigência de 11% do volume de empréstimos concedidos em patrimônio, eles tinham 19,2% em junho.
- O que poderia ser feito é reduzir gastos públicos - diz Ana Carla, ao comentar a possibilidade de o BC conter a rolagem de dívidas no cartão de crédito e taxar o leasing com IOF.
Para o coordenador do núcleo econômico da Fecomércio-RJ, João Carlos Gomes, limitar o crédito seria prejudicar o crescimento do país:
- A indústria está investindo e importando e tem capacidade de atender à demanda.
Segundo a consultoria MCM, o crédito ainda está muito abaixo do patamar de outros países em desenvolvimento, como Chile (66% do PIB), África do Sul (80%) e Coréia (90%).
- O crédito no Brasil ainda pode crescer muito, especialmente na área de crédito pessoal e habitação - diz o sócio da MCM Antônio Madeira.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem manifestado preocupação com financiamentos muito longos, como o de veículos, que chega a 99 parcelas. Para o economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Nicolas Tinga, essa questão não preocupa. Em 2007, foi vendido 1,8 milhão de veículos financiados, com prazo médio de 42 meses. Apenas 10% dos financiamentos foram em prazos de 72 a 84 meses:
- As projeções dos bancos prevêem crescimento no crédito entre 18% e 20% neste ano. Em 2009, teremos uma demanda aquecida, puxada pelo crédito imobiliário.
Fontes da equipe econômica continuam insistindo na necessidade de controlar a expansão do crédito, para que a demanda caminhe no compasso da produção. Para o economista do Senado Marcos Köhler, a preocupação é legítima, pois é preciso acompanhar a qualidade do crédito.
Esse é o risco que a euforia de crédito poderia ter causado ao universitário brasiliense Victor Guerra. Em cinco meses ele recebeu, sem pedir, dois cartões de crédito de bancos diferentes. Nesse intervalo, ele perdeu o emprego na BRA, quando a companhia parou de voar. Para ele, os cartões deram um alívio em um momento de aperto. Hoje trabalhando na Varig, usa com parcimônia:
- O engraçado é que eles não me pediram documento nem comprovante de renda.
COLABOROU Patrícia Duarte