Título: Autoridades dos EUA foram negligentes na crise
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 30/03/2008, Economia, p. 35

Assessores do Tesouro americano já admitem que houve falhas do BC e de outras três agências na vigilância do mercado

WASHINGTON. Ao longo de sete meses de uma espécie de caça às bruxas, alentada por uma operação pente-fino nas agências federais e estaduais encarregadas de monitorar o setor financeiro, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos chegou a uma conclusão óbvia: a crise de crédito deflagrada pela implosão das hipotecas de alto risco, e que vem tirando o sono dos mercados, foi causada basicamente por cochilos de Tio Sam.

Henry Paulson, o secretário do Tesouro, está convencido de que o problema se deu não por falta de regulamentações, mas de sua implementação. E, sobretudo, de coação. Quatro das principais agências federais são apontadas como negligentes nesse episódio, segundo revelou ao GLOBO um funcionário do setor de política fazendária do Tesouro.

Uma delas é o Federal Reserve (Fed, o banco central americano). A outra é o Escritório de Supervisão da Economia, órgão do Tesouro que fiscaliza instituições de poupança e empréstimos. O Escritório de Controle da Moeda e a Corporação Federal de Garantia de Depósitos também teriam falhado.

- O que aconteceu, no final desse processo, foi que ficamos de frente para o espelho... e não gostamos do que vimos - disse a fonte.

Congresso defende regras mais rígidas

Brian McCormally, ex-chefe de Fiscalização do Escritório de Controle da Moeda, sintetizou a questão:

- O que houve foi, sem dúvida alguma, uma falta total de coordenação federal na vigilância do mercado. O Departamento do Tesouro e o Fed só perceberam a fragilidade do mercado de hipotecas de alto risco quando ele começou a ruir, em agosto passado.

Segundo McCormally, a falta de percepção era tão grande que o governo só soube que o Bear Stearns, quinto maior banco de investimentos do país, estava por quebrar poucas horas antes do seu executivo-chefe se reunir com acionistas para comunicar o fato.

- A situação poderia ser descrita graficamente através de uma imagem corriqueira: percebemos que o nosso sistema tem tantos ou mais furos que um queijo suíço - disse o funcionário do Tesouro.

O resultado de sete meses de revisão do sistema é a proposta de uma reforma total a ser implantada gradualmente. O seu primeiro passo, a ser anunciado amanhã por Paulson, é a concessão de maiores poderes ao Fed - que em vez de monitorar apenas a vida dos bancos comerciais, deverá ficar de olho também nos bancos de investimentos e operadores de hedge funds (fundos de investimento) de Wall Street.

O Congresso Nacional, no entanto, diz ter mais pressa e pretende criar regulamentações mais severas que as atuais. Segundo o senador Charles Schummer, da Comissão de Economia, o mercado se modernizou e Tio Sam não acompanhou tal progresso.

- Já está mais do que claro que o mundo financeiro evoluiu de uma forma impressionante, enquanto o sistema regulatório não acompanhou essa evolução.

Paulson, no entanto, vem tratando de convencer os parlamentares a não exagerarem na dose, temendo que mudanças radicais - que amarrem em demasia as mãos de um mercado que o atual governo optou por deixar agir por conta própria - criem pânico, desestabilizando ainda mais a economia, ou leve à migração de investimentos para outros países.

Bush quer a renegociação de mais 60 mil hipotecas

Ontem, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, afirmou que pretende ampliar os esforços para ajudar contribuintes endividados a pagarem suas hipotecas. Dessa forma, segundo ele, o programa da Administração Federal de Moradias (FHA, na sigla em inglês) terá atendido 300 mil pessoas até o fim deste ano - 60 mil a mais do que a previsão inicial. Desde agosto, quando o programa foi lançado, 130 mil pessoas já renegociaram seus débitos.