Título: Presidência mantém sigilo de 95,5% dos gastos
Autor: Franco, Bernardo Mello; Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 01/04/2008, O País, p. 8

Segundo portal da CGU, despesas com cartão corporativo do governo federal somaram R$9 milhões até março

BRASÍLIA. Em meio ao tiroteio sobre o dossiê contra o governo Fernando Henrique Cardoso, a Presidência da República decidiu manter o sigilo de quase todos os seus gastos com cartões corporativos. Segundo dados divulgados ontem no Portal da Transparência, da Controladoria Geral da União (CGU), 95,5% dos R$2,727 milhões gastos pela Presidência em janeiro e fevereiro de 2008 com os cartões não foram discriminados na internet por questões de "segurança da sociedade e do Estado". A CGU indica que, até o extrato de março, o total de gastos com os cartões está em R$9,010 milhões, 11,5% dos R$78, 03 milhões das despesas realizadas desta forma em 2007.

Apenas dois ecônomos da Secretaria de Administração do Planalto tiveram suas contas de março publicadas no Portal, contra 13 que apareceram ano passado. De acordo com este último levantamento, do total de mais de R$9 milhões, o órgão que mais gastou foi a Presidência (R$2,727 milhões), seguido dos ministérios do Planejamento (R$1,653 milhão) e do Desenvolvimento Agrário (R$933 mil).

Os números, contudo, não se referem a todas as pequenas despesas do governo: os gastos com as chamadas "contas tipo B", também utilizadas para este fim, não estão incluídos.

Em janeiro, a Secretaria de Administração da Presidência, responsável por gastos com a manutenção dos palácios e a família do presidente Lula, divulgou contas de cinco ecônomos. No mês seguinte, o portal limitou a transparência às despesas de dois funcionários, o que foi mantido na atualização de ontem. Todos os outros gastos têm sido lançados sob a rubrica de "informações protegidas por sigilo, nos termos da legislação, para garantia da segurança da sociedade e do Estado".

Os novos dados do Portal revelam uma mudança de comportamento em outros órgãos envolvidos no escândalo. A Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, por exemplo, optou por não usar os cartões desde a queda da ex-ministra Matilde Ribeiro. Empossado em 20 de fevereiro, seu substituto, Edson Santos, preferiu passar longe do meio de pagamento - pelo menos até o fim daquele mês.

Ministros convocados reduzem despesas

Convocados para depor à CPI do Cartão Corporativo, os ministros Orlando Silva (Esporte) e Altemir Gregolin (Secretaria da Pesca e Aqüicultura) resolveram enxugar as despesas. Criticado por gastar R$512,60 numa churrascaria em Brasília - o que é proibido pelas regras, que impedem o pagamento de refeições na capital - Gregolin não usou seu cartão.

O ministro do Esporte forneceu a conta de março, mas a fatura, curiosamente, só menciona um gasto de janeiro: R$395 pagos à Companhia Industrial de Grandes Hotéis, como está registrado na Receita o tradicional Hotel Glória, no Rio.

A mudança de postura também é visível no Comando da Marinha. Neste ano, o órgão gastou com cartões R$174.023,23 - a maior parte através de saques em dinheiro. No entanto, no extrato de março, a Força registrou gastos de apenas R$924,55. Do total gasto pela Marinha no ano, R$25.990,00 são considerados gastos sigilosos.

O ministro-chefe da Secretaria Especial de Portos, Pedro Britto, apareceu com seu primeiro gasto no extrato de março: ele usou cartão em janeiro para pagar diária de R$280,15 no Caesar Park na avenida Vieira Souto, Ipanema - um dos endereços mais luxuosos da cidade.