Título: Indústria prevê aumento de 7,5% da demanda em 2008
Autor: Oliveira, Eliane; Novo, Aguinaldo
Fonte: O Globo, 01/04/2008, Economia, p. 19

Mas estimativa de inflação de 4,7% preocupa, diz CNI

BRASÍLIA e SÃO PAULO. O setor produtivo brasileiro vê céu de brigadeiro este ano quando o assunto é o consumo das famílias, mas já trabalha com a possibilidade de a inflação medida pelo IPCA fechar 2008 em 4,7%, acima do centro da meta de 4,5% estabelecida pelo Banco Central e da estimativa anterior de 4,1%. Os dados foram divulgados ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que também reviu sua projeção de crescimento de demanda para 7,5% em relação a 2007, ante previsão de 6,2% feita em dezembro.

- Os índices de preços têm mostrado que a inflação tem se expandido, mas não está disseminada. O que tem sustentando esse crescimento são reajustes concentrados em alguns produtos agrícolas e metálicos, como o minério de ferro - explicou Paulo Mol, economista da CNI.

Para a CNI, o ritmo mais forte de expansão do consumo das famílias será puxado pelo crescimento da renda dos mais pobres, impulsionado pelo aumento da massa real dos salários no setor de 7,5% em janeiro; reajuste do salário mínimo em 9,2%, com ganho real de quase 5%; e a ampliação em 30% dos desembolsos previstos para o Bolsa Família em 2008.

A CNI manteve suas projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos) brasileiro e do PIB industrial em 5% para este ano, e alertou para a necessidade de recompor estoques. "Uma em cada quatro empresas industriais iniciou 2008 com o nível de estoques abaixo do planejado", diz o documento.

A taxa de câmbio estimada pela CNI este ano é de R$1,72, a mesma projetada em dezembro de 2007. Já o emprego formal continuará crescendo em 2008. O índice médio de desemprego, informa a entidade, deverá ficar em 8,4%, 0,6 ponto percentual abaixo dos 9% previstos em dezembro. A taxa nominal de juros, por sua vez, deve ficar em 11,25% anuais, contra 11,1% na estimativa anterior.

FGV: uso da capacidade instalada de 85,2% em março

Também não houve revisão da estimativa de alta dos investimentos, fixada em 14%. Segundo Mol, essa taxa é importante, levando-se em conta que corresponde a mais do que o dobro da taxa de crescimento do PIB.

- A capacidade de produção vem aumentando significativamente - destacou o economista da CNI.

O forte aumento das importações levou a entidade a aumentar a projeção das compras externas de US$150 bilhões para US$165 bilhões. A revisão, no entanto, foi compensada pela revisão para cima da estimativa de exportações, de US$175 bilhões para US$190 bilhões. O saldo comercial ficaria em US$25 bilhões.

Em pesquisa da FGV, o setor industrial também demonstrou otimismo. O nível de demanda interna referente a março que foi informado pelos empresários se equiparou ao ritmo registrado no fim do segundo semestre de 2007, pico da atividade industrial. Isso fez com que o nível de utilização da capacidade instalada batesse em 85,2% em março, contra 84,7% em fevereiro e bem próximo dos 86,7% de dezembro.

Na avaliação da FGV, esses dados não indicam ainda explosão, mas fazem "acender a luz amarela" de que o governo poderá ser obrigado a promover um "ajuste fino" para evitar possível desequilíbrio entre oferta e demanda.

- Atingimos um nível de atividade parecido com o do segundo semestre do ano passado, quando o crescimento da indústria alcançava índices anualizados de 6%. O problema é que o país ainda não está preparado para crescer tão rapidamente assim. Os investimentos já feitos para aumentar a capacidade de produção têm prazo para maturar - afirmou o economista Aloisio Campelo.

Ainda assim, das 1.069 empresas consultadas, 60% apostam em crescimento de vendas e lucros nos próximos seis meses, contra 2% que temem uma piora do quadro econômico.