Título: Pacote anticrise dos EUA decepciona analistas
Autor: Frisch, Felipe
Fonte: O Globo, 01/04/2008, Economia, p. 21

Reforma, que amplia poderes do Fed, é considerada a maior desde a Grande Depressão

WASHINGTON e RIO. O amplo pacote de reformas do sistema financeiro dos Estados Unidos, apresentado ontem pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson, e apontado como a maior reforma desde a Grande Depressão, na década de 30, foi recebido com pouco entusiasmo por analistas. O motivo é que, apesar de abrangente, as medidas propostas não atingem a profundidade necessária para evitar uma nova crise. O próprio Paulson deixou transparecer que a iniciativa foi concebida mais como um curativo do que como preventivo:

- Precisamos de um sistema que nos dê mais ferramentas para tentar resolver problemas - disse ele, quando a expectativa generalizada era a de que o Tesouro proporia medidas para evitar problemas.

Apesar disso, as bolsas subiram com o anúncio do pacote. Em Nova York, o Dow Jones fechou em alta de 0,38%; Nasdaq, com 0,79%; e S&P, 0,57%. No balanço do trimestre, porém, as bolsas americanas ficaram em terreno negativo, com o pior resultado desde 2002. O Dow Jones acumulou perdas de 7,6% e o Nasdaq, de 14,1%. As bolsas européias e asiáticas fecharam em queda ontem, antes do anúncio do pacote. No trimestre, também amargaram o pior resultado desde setembro de 2002.

Bolsa de São Paulo fechou em alta de 0,85%

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encerrou o dia com ganho de 0,85%, aos 60.968 pontos. Diante de incertezas sobre os rumos da economia dos EUA, o dólar subiu 0,57%, a R$1,753. Já o risco-Brasil teve queda de 0,70%, para 281 pontos centesimais.

O pacote prevê mudanças na estrutura de vigilância do setor financeiro. Hoje, são sete instituições, que serão reduzidas a três. Uma das conclusões das análises que o governo fez da crise atual foi justamente a de que há demasiados órgãos encarregados de tarefas sobrepostas e que não se comunicam bem entre si. Por isso, falhas de bancos e operadores de mercado só eram percebidas quando explode uma crise.

A principal recomendação diz respeito ao Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que passaria a supervisionar bancos de investimento, companhias de seguro e fundos de investimentos de risco (hedge funds). Hoje, a supervisão está restrita a bancos comerciais. Haverá ainda a criação de uma agência de vigilância de empréstimos imobiliários e a fusão da Securities and Exchange Commission (SEC, que regula o mercado de capitais nos EUA) com a Comodity Futures Trading Commission, que regula os mercados de matérias-primas.

A ampliação dos poderes do Fed foi mal recebida pela instituição, pois, apesar de assumir mais responsabilidade, a ele não foi atribuída autoridade explícita de fazer cumprir as regras. Além disso, é possível que as medidas não sejam implementadas na gestão de George W. Bush. A estimativa é que elas só serão totalmente implantadas em cinco anos.

Congresso americano critica medidas

As mudanças propostas não atendem aos consumidores. Por isso, as reações foram negativas no Congresso Nacional, onde a maioria democrata vem preparando o seu próprio pacote de reformas. Este é tido como mais ambicioso, por impor mais restrições aos participantes do mercado - desde bancos de investimento a bancos comerciais, financeiras em geral e corretores.

- Lamentavelmente, embora mereça cuidadosa consideração, o projeto do governo faz pouco, se tanto, para aliviar a crise atual que foi provocada pela própria falta de disposição do governo em agir - disse o senador Christopher Dodd, presidente da Comissão de Bancos do Senado.

Paulson, que era executivo-chefe da Goldman Sachs antes de assumir o Tesouro, comentou que as atuais regras do jogo são obsoletas. Há setores que não são fiscalizados. Ainda assim, ele procurou buscar mudanças que não implicassem em regulamentações muito duras, difíceis de Wall Street engolir.

- Isso poderia dificultar a capacidade dos mercados americanos competirem com os rivais estrangeiros - alegou.

COLABOROU Juliana Rangel, com agências internacionais

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