Título: Guerra do tráfico na Rocinha é disputa interna
Autor: Carvalho, Jailton de
Fonte: O Globo, 02/04/2008, Rio, p. 20

Cisão no bando que controla a favela causa tiroteio com 1 morto e 7 feridos

Uma disputa interna pelo controle do tráfico na Rocinha ¿ uma das favelas onde estão sendo feitas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ¿ transformou novamente a comunidade em zona de conflito. Durante mais de quatro horas, entre a noite de anteontem e a madrugada de ontem, traficantes trocaram tiros, provocando a morte de uma pessoa e espalhando medo entre moradores da comunidade e da Rua Marquês de São Vicente, na Gávea.

O confronto começou por volta das 22h30m de segunda-feira, na Rua Um e na localidade conhecida como 99. A cisão entre integrantes da facção teria sido motivada por divergências entre o chefe do tráfico, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, e Inácio de Castro Silva, o Canelão, ¿gerente¿ da venda de drogas na parte baixa da comunidade. No conflito, segundo moradores, Canelão e outros quatro bandidos de seu grupo teriam sido mortos. A PM, no entanto, não encontrou os corpos. O Serviço Reservado (P-2) da PM tem informações de que Canelão teria se aliado a outra facção para tentar dominar a Rocinha.

Mototaxistas param de subir o morro

Temendo ser vítimas de balas perdidas, os mototaxistas não se arriscaram a subir o morro com passageiros. Quem chegava do trabalho ficava na parte baixa do morro esperando o cessar-fogo para seguir caminho. Policiais do 23º BPM (Leblon) foram acionados, mas não trocaram tiros com os bandidos.

Vizinhos da favela também ficaram assustados. Uma moradora da Rua Marquês de São Vicente que preferiu não ser identificada contou que criminosos da Rocinha têm usado motos para assaltar motoristas nas proximidades.

¿ Na semana passada, dois homens numa moto tentaram roubar meu Golf num sinal aqui na região. Eles estavam escondidos junto ao muro do Jockey Club. Eles atiraram contra a janela e escapei por pouco ¿ contou ela.

O tiroteio durou até depois das 3h. Sete pessoas baleadas foram levadas em carros particulares para os hospitais Miguel Couto, no Leblon, e Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca. Luiz Henrique da Silva, de 43 anos, foi baleado no peito e morreu pouco depois de chegar ao Miguel Couto. Os parentes contaram que ele chegava em casa do trabalho quando foi ferido por bala perdida. Policiais da 15ª DP (Gávea) estranharam, porém, que ele tenha sido socorrido num Honda Civic placa LUH-1710, roubado na sexta-feira em Botafogo, e ter sido abandonado na porta do hospital.

Moradores temem novos confrontos

Mais cinco homens foram socorridos no Miguel Couto. Segundo os investigadores da 15ª DP, dois deles fugiram do hospital depois de serem medicados: José Roberto da Silva, de 25 anos, baleado de raspão no peito, e Erivaldo Tenório de Araújo, de 37, ferido no braço direito. Erivaldo já esteve preso e estava em liberdade condicional. O nome de José tinha aparecido numa investigação da Delegacia de Combate às Drogas (DCOD) como suspeito de envolvimento com o tráfico.

Os outros socorridos no Miguel Couto foram Gilberto Rosa dos Santos, de 38 anos, baleado no pé direito, Ermenegildo Feitosa Camilo, de 28, ferido no peito e numa das pernas, além de um adolescente de 16 anos atingido na perna direita. No Lourenço Jorge, foi atendido William Robson Cabral, de 20 anos, ferido por três tiros. Segundo os policiais da 15ª DP, quando menor William cumpriu medida socioeducativa por associação para o tráfico de drogas.

Ontem pela manhã, moradores afirmavam temer uma nova guerra do tráfico. Apesar do temor, a situação era de uma aparente tranqüilidade. O comércio funcionava normalmente e os mototaxistas voltaram a circular. O policiamento, contudo, não foi reforçado.