Título: Pai se diz inocente e se entrega
Autor: Barbosa, Adauri Antunes; Oliveira, Germano
Fonte: O Globo, 04/04/2008, O País, p. 3
Madrasta também se apresenta; em carta, Alexandre diz que é condenado pelo que não fez.
Vinte horas depois de terem a prisão temporária decretada pela Justiça, o bacharel em Direito Alexandre Alves Nardoni, pai de Isabella de Oliveira Nardoni, e sua mulher, a estudante de Direito Anna Carolina Trota Jatobá Nardoni, madrasta da menina, se entregaram ontem à tarde à polícia. Isabella, de 5 anos, foi morta no sábado à noite depois de ser jogada da janela do apartamento do pai e da madrasta, no sexto andar de um prédio da Zona Norte. O casal deverá ficar preso durante 30 dias, enquanto a polícia tenta esclarecer as circunstâncias da morte da menina.
Na condição de futuros advogados, os dois se entregaram às 16h no Fórum de Santana, perto do edifício London, onde moram e onde a menina foi encontrada morta no último sábado. Os dois temiam sofrer violência física de populares se chegassem algemados à sede do 9º Distrito Policial, no Carandiru. Na chegada, ouviram gritos de ¿assassino¿ e ¿vagabunda¿ de uma mulher na multidão.
Os dois são, para a Polícia Civil, os principais suspeitos de terem jogado Isabella pela janela. Mas, em entrevista no 9º DP, o diretor do Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap), Aldo Galeano, disse que a polícia age com cautela.
¿ Nosso objetivo é esclarecer a verdade. Estamos agindo com cautela. Os dois ficarão presos por 30 dias em celas separadas. Prestarão depoimentos de forma isolada. Há várias contradições entre ambos. Esperamos que os depoimentos propiciem o esclarecimento das contradições. Com o esclarecimento do caso, decidiremos se serão indiciados ou não. Por enquanto, devemos ter prudência e cautela ¿ disse o diretor do Decap.
Segundo ele, por ter curso superior, Nardoni ficará preso no 77º DP, em Santa Cecília, enquanto ela, que é estudante, ficará no 89º DP, no bairro do Morumbi, onde há celas especiais para mulheres. Os dois filhos do casal, um de 3 anos e outro de dez meses, ficarão com os avós maternos.
¿ Eles apresentaram contradições nos depoimentos anteriores. As contradições foram encaminhadas para a Justiça, que decretou a prisão temporária dos dois por 30 dias. Não posso dar detalhes dessas contradições porque o juiz Mauricio Fossen decretou sigilo judicial ¿ disse Galeano.
Para o delegado, a polícia vem fazendo sua parte no caso:
¿ Para a polícia, o trabalho tem que ser técnico. Houve um homicídio, uma comoção nacional, e temos que esclarecer o caso sem injustiças.
Tesoura e roupas apreendidas
Na perícia que o Instituto de Criminalística realizou anteontem à noite no apartamento de Alexandre, os técnicos descobriram manchas escuras num dos dois carros do casal, um Ford KA. Para peritos, as manchas poderiam ser de sangue. Foram encontradas manchas de sangue em outras partes do apartamento, como na porta do outro quarto. Os técnicos usaram um produto químico chamado Luminol, que detecta fluidos humanos, como sangue ou esperma, que não são identificados a olho nu. Os técnicos constataram que a tela de proteção do quarto foi cortada com uma tesoura. Eles apreenderam ontem à noite uma tesoura no apartamento do casal, que será periciada para se saber se foi a que cortou a tela.
Os peritos também apreenderam a roupa que Alexandre usou na noite do crime. A muda de roupa estava no apartamento da irmã, também no 6º andar, que está vazio. A polícia vai analisar a roupa, pois peritos teriam identificado manchas de sangue. Quando localizou o corpo no jardim do prédio, Alexandre se abraçou à menina e pode ter se sujado. A perícia vai apurar se a mancha no carro era sangue, e, em caso positivo, de quem era. Com uma boneca, a perícia reconstituiu o encontro do corpo de Isabella, que estava de bruços no jardim.
Depois de depor, Alexandre a Anna Carolina poderão ser submetidos a uma acareação e levados ao prédio para uma reconstituição do caso.
O advogado do casal, Jairo Neris de Souza, foi ao DP três vezes negociar a apresentação do casal à polícia e evitar que os dois fossem hostilizados. Souza disse que ele e seus clientes querem colaborar com a Justiça.
¿ Vamos analisar os documentos e provas que constam do inquérito e colaborar no que for possível para esclarecer o caso ¿ disse o advogado.
Alexandre e Ana Carolina Nardoni ficaram no 9º DP em salas separadas por duas horas. Nesse período, foram avisados da prisão e informados sobre os procedimentos a que serão submetidos. Às 20h, foram levados para o Instituto Médico-Legal (IML), submetidos a exames de corpo de delito e de lá seguiram para as carceragens.
Assassino é um monstro, diz pai
Antes de se entregar à polícia ontem, o casal Nardoni escreveu duas cartas alegando inocência. Alexandre Nardoni chamou o assassino de Isabella de monstro. Anna Carolina contou detalhes da vida em família e da relação da menina com os dois irmãos. Escritas à mão num papel decorado com um coração, elas terminam com a mesma afirmação: ¿A verdade sempre prevalecerá¿.
Alexandre Nardoni disse que as pessoas o condenam sem o conhecer e que seria incapaz de matar a filha que tanto amava. Anna Carolina falou do peso da palavra madrasta e disse que era chamada pela menina de Tia Carol. As cartas são datadas de anteontem, 2 de abril, e não trazem respostas sobre as dúvidas levantadas pelos investigadores da polícia.