Título: Molon vai ter que rever diversos conceitos
Autor: Menezes, Maiá
Fonte: O Globo, 06/04/2008, O País, p. 10
Vice-governador, escalado por Cabral para coordenar campanha, admite que Eduardo Paes era mais viável
Escalado como coordenador das eleições no Rio pelo governador Sérgio Cabral e como "pai do PAC" pelo presidente Lula, o vice-governador Luiz Fernando Pezão está se equilibrando entre as duas tarefas com sua conhecida ansiedade, ou "senso de urgência", como prefere definir. Pezão conta que rifar a candidatura de Eduardo Paes foi o momento de maior tristeza de Cabral que já presenciou. Para ele, a candidatura de Paes era incomparavelmente mais viável que a do petista Alessandro Molon, escolhido para a coalizão PT-PMDB. Pezão diz que Molon, antigo crítico da política de segurança do estado, "vai ter que rever diversos conceitos" para se adequar à aliança.
Maiá Menezes
O senhor já esteve no PDT, admira o governador José Serra e é aliado do PT. Qual seria seu perfil ideológico?
LUIZ FERNANDO PEZÃO: Na política, tenho uma visão meio misturada. Acredito no poder do Estado como realizador. Mas também tenho muito do pensamento da iniciativa privada, da agilidade para a coisa acontecer rapidamente. O secretariado lá em Piraí brincava me chamando de ansioso. Mas o (médico) Alexandre Adler, consultor na área de saúde lá, me definiu: ansiedade é doença, o Pezão tem é "senso de urgência".
O que achou do apelido de "pai do PAC"?
PEZÃO: Lula sempre brincou na informalidade comigo. Depois que a gente fez aquela apresentação com maquete eletrônica em Manguinhos, me ligaram da Presidência pedindo para eu mostrar toda a apresentação, porque ele queria um responsável, em cada cidade do Brasil, com o "padrão Rio de Janeiro". Ele sempre me dá tarefa. Eu sinto nele a mesma ansiedade que eu tenho: de querer que as amarras sejam cortadas. Ele disse: Sérgio, escala uma pessoa que vai resolver as amarras, que eu vou escalar a Dilma.
Como é sua relação com a ministra Dilma?
PEZÃO: A gente - eu e a Dilma - andou muito junto para desamarrar as coisas.
O senhor é responsável pela rotina de obras, mas também pela articulação política do governo. Como concilia isso?
PEZÃO: Vou fazendo tudo. O Sérgio é um dos políticos mais generosos que já conheci na vida. Normalmente não se dá espaço para o vice trabalhar... Tem que contar com a generosidade do gestor. Tem hora que fico até com vergonha do tanto que ele me prestigia.
Sem contar que ele tem viajado um bocado, não?
PEZÃO: Eu também, quando era prefeito, vivia no Rio, em Brasília, pedindo dinheiro, com meu São Pidão no bolso. Sérgio tem feito isso com maestria.
Como o senhor planeja coordenar as eleições no Rio?
PEZÃO: Estou fazendo um esforço tremendo para arrancar com todas as obras até o final de abril. Aí, andando, as empresas tomam conta. A orientação do Sérgio é a gente não se meter muito nas eleições municipais fora da capital, porque tivemos apoio de grande parte das forças políticas no interior.
E no Rio?
PEZÃO: Aqui ele vai mergulhar, vai fazer campanha.
A escolha de Alessandro Molon pelo governador era esperada pelo senhor?
PEZÃO: Olha, fui pego de surpresa. Acho que todo mundo foi. A decisão foi do Sérgio junto com o Picciani. Mas até aquela manhã, nada disso passava pela cabeça dele. A idéia surgiu nas quatro horas e meia que ele ficou conversando com o Picciani. Ele estava tentando emplacar o Eduardo (Paes), tentando fazer com que Picciani desistisse do acordo com o DEM. Foi muito sofrido. Nunca vi o Sérgio tão triste. Ele tinha a maior confiança de que o Eduardo ganharia.
Ele tinha uma viabilidade eleitoral aparentemente melhor que a do Molon...
PEZÃO: Não tem nem comparação. As pesquisas apontavam, mesmo depois da decisão, que ele tinha 10% das intenções de voto. Na hora que ele pegasse a legenda do PMDB, ia disparar.
Mas se ele sai pelo PMDB e polariza com o (senador) Crivella, como o governador ia entrar em uma campanha adversária do candidato do presidente Lula?
PEZÃO: É, o Crivella é um candidato importante. A Record ajudou muito o Lula na campanha. Mas acho que aí o Lula ia ficar sem palanque, não ia vir para palanque algum.
Agora ele vem?
PEZÃO: Vem sim. Quando o Sérgio deu a notícia para ele, ele ficou superfeliz.
Como trabalhar uma candidatura de um deputado que já fez duras críticas à política de segurança do governo?
PEZÃO: O Caveirão está aprovado por todos, até pela comunidade. A política é uma arte, cada vez mais, de superar as divergências. É preciso saber conviver nesse mundo. As coisas têm uma velocidade de mudança muito grande. Eu acho o Molon uma pessoa muito nova. E vai se adaptar. Não dá para se isolar em suas opiniões - ainda mais ele, que vai fazer aliança com um partido que como o PMDB, que é uma festa, com opiniões variadas. Ele vai ter que rever diversos conceitos dele. Não precisa mudar sua identidade, os seus princípios. Mas tem que se adequar a uma aliança.
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