Título: Obama tem débitos com King e Malcolm X
Autor: Martins, Marília
Fonte: O Globo, 04/04/2008, O Mundo, p. 28

Pesquisador do movimento dos direitos civis nos EUA e professor de uma das mais tradicionais universidades da elite branca americana, a Universidade da Pensilvânia, o cientista político Rogers Smith diz que o sonho de Luther King ainda está longe de se tornar realidade.

Qual o maior legado de Martin Luther King? O que permanece ainda hoje daquele movimento?

ROGERS SMITH: Sem dúvida, as duas leis aprovadas nos anos 60: a Lei dos Direitos Civis, de 1964, que proibiu legalmente a segregação racial; e a lei da garantia do direito ao voto, de 1965, que erradicou as práticas que impediam os negros de exercerem o seu direito de voto, como os testes de alfabetização para eleitores ou a cobrança de taxas para tirar o título de eleitor. Estas duas leis mudaram a face da política americana. Ainda temos apenas três senadores negros, mas já existem governadores negros e temos agora um candidato negro com chances reais de chegar à Presidência. Esta é uma radical transformação que não seria possível sem King.

O discurso sobre raça e política feito por Obama pode ser considerado uma terceira via para abordar a questão racial americana, distinta das vertentes de King e de Malcolm X?

SMITH: É preciso não superestimar o discurso de Obama. É verdade que nos anos 60 o movimento negro contra a segregação racial se dividiu entre a liderança de Martin Luther King Jr., a favor de propostas de integração, e a forte influência de Malcolm X, com suas palavras de ordem de confronto racial diante da supremacia branca e de reforço das formas de identidade racial negra. Mas, hoje, esta divisão não mais existe. Obama é herdeiro dos anos 60 e, sem o movimento dos direitos civis, uma candidatura presidencial com propostas multirraciais jamais teria sido possível. Ele propõe uma terceira via, mas tem débitos com King e com Malcolm X.

O que ainda falta conquistar para que os EUA sejam uma democracia racial?

SMITH: As conquistas são sociais, e não mais jurídicas. Do ponto de vista jurídico, as leis condenam a desigualdade e a discriminação racial. Mas a realidade econômica é outra. Trata-se agora de ter uma agenda para reduzir as desigualdades. Obama pode falar em formar uma coalizão entre diversas minorias discriminadas e de um programa comum para todas, com a ajuda do eleitorado branco que seja solidário às camadas mais pobres. (M.M.)