Título: Uma nova agenda racial
Autor: Martins, Marília
Fonte: O Globo, 04/04/2008, O Mundo, p. 28

Desigualdade econômica é foco da luta por igualdade nos EUA, 40 anos após morte de Luther King.

Quarenta anos depois do assassinato do líder negro americano Martin Luther King Jr., abatido a tiros no dia 4 de abril em Memphis, Tennessee, os EUA ainda são um país repleto de desigualdades raciais. E, se em sua época áurea o movimento dos direitos civis tinha como foco principal a aprovação de leis que banissem de uma vez por todas a segregação da sociedade dos EUA, hoje o maior desafio da agenda contra as desigualdades raciais americanas está na economia. Especialistas como o professor Michael Eric Dyson, sociólogo e professor da Universidade de Georgetown, em Washington, explicam por que a questão central da luta pela igualdade racial nos EUA deixou de ser jurídica para hoje se tornar econômica: estudos e pesquisas realizados ao longo dos últimos anos revelam que, apesar de todo o arcabouço de leis aprovadas ao longo da década de 1960, as escolas americanas são hoje mais segregadas que há 40 anos, e que as minorias raciais ainda sofrem com a falta de acesso ao mercado de trabalho e a boas oportunidades de emprego.

¿ As leis contra a discriminação existem, resta fazer com que elas se tornem também uma realidade econômica ¿ diz Dyson.

Mas, apesar das desigualdades que permanecem, houve algumas mudanças nos 40 anos desde a morte de King. Como o surgimento de uma nova classe média negra. Segundo o pesquisador Timothy Nelson, da Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, autor de mais de dez livros sobre o movimento de direitos civis americano, a campanha do senador Barack Obama à Casa Branca (e o fato de ele ser o primeiro negro com chances reais de chegar à Casa Branca) é prova disso.

Leis foram conquistas fundamentais

Ele lembra que Obama ¿é um advogado negro formado por Harvard¿, e que avanços como esse só foram possíveis nos EUA devido a avanços ligados ao movimento pelos direitos civis.

Especialistas afirmam que duas conquistas dos anos 1960 foram fundamentais: a Lei dos Direitos Civis de 1964, que aboliu instrumentos legais de segregação racial, e a lei da garantia do direito ao voto, de 1965, eliminando mecanismos que na prática impediam os negros de votar.

Obama representa o que analistas convencionaram chamar de uma ¿terceira via¿ na maneira de pensar o movimento em defesa da igualdade racial dos EUA. Nos anos 1960, a luta pelos direitos dos negros americanos se dividia entre a liderança de Martin Luther King, favorável à integração racial, e a forte influência de Malcolm X e de sua Nação do Islã, favoráveis, num primeiro momento, a um confronto racial e à derrota do que chamavam de ¿supremacia branca¿ vigente nos Estados Unidos.

Obama, dizem analistas, é um herdeiro desse confronto de filosofias dos anos 1960, mas avança em relação às duas propostas, com um apelo próprio a uma união multirracial.

Especialistas lembram ainda que existe nos EUA uma vertente radical e combativa que tem em igrejas ¿ e sobretudo nos discursos dos líderes religiosos da comunidade negra ¿ uma forte tradição que permanece intocada.

É bom lembrar, segundo eles, que tanto King quanto Malcolm X eram líderes religiosos: o primeiro numa igreja protestante de Memphis e o segundo numa mesquita muçulmana da Nação do Islã no Harlem, em Nova York.

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