Título: Contra a crise americana, AL precisa reduzir os gastos públicos
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 07/04/2008, Economia, p. 21

MIAMI BEACH. "Nem tudo o que reluz é ouro", advertiu Santiago Levy, vice-presidente para Setores e Conhecimento e economista-chefe do BID, lembrando que, dos 5,6% de crescimento da América Latina de 2002 a 2006, dois pontos percentuais se deveram a "fatores externos": juros baixos, avanço global e aumento do preço de mercadorias. "Não fosse por essa sorte", disse, a região cresceria a níveis medíocres. Diante da atual crise de crédito, recomenda redução de gastos públicos.

Uma recessão nos EUA abalaria muito a América Latina?

SANTIAGO LEVY: Cada país tem uma problemática diferente. É cada vez mais difícil falar sobre a região como um todo, pois ela é cada dia mais heterogênea. O que o estudo aponta é a necessidade de um pouco mais de atenção aos gastos públicos, que cresceram de maneira rápida.

O que fazer diante disso?

LEVY: Reduzir o ritmo de crescimento dos gastos públicos e mudar a sua composição, para aumentar os gastos com investimentos.

Que gastos devem ser cortados, prioritariamente?

LEVY: Não é a mesma coisa ajustar os salários dos professores e reduzir o ritmo de execução de uma estrada, por exemplo. Do ponto de vista macroeconômico, há mais flexibilidade para se ajustar os gastos na medida em que nem todos eles estejam associados a salários, pensões e direitos.

E quanto aos investimentos?

LEVY: Num contexto desfavorável, os gastos de investimento na estrutura física podem ser ajustados mais facilmente.

Seria possível atrair o setor privado para parcerias que não são rentáveis de imediato?

LEVY: Um contexto de estabilidade deixa o setor privado mais cômodo com projetos de longo prazo. Por isso, é importante manter a estabilidade que a América Latina conseguiu.

Quais os mais prováveis efeitos da atual crise?

LEVY: Num cenário muito pessimista, os problemas de crédito, hoje em grande parte contidos nos EUA, vão afetar as empresas latino-americanas. Elas e os governos precisam de um plano B que leve em conta a forma como ambos seriam afetados por uma redução nos fluxos financeiros.

O senhor prevê uma deterioração na América Latina?

LEVY: Não se trata de um prognóstico meu, mas de uma possibilidade. No fundo, creio que as coisas estão bem. E, por isso, temos de aproveitar para nos fortalecermos mais, porque poderá haver um contexto em que um crescimento lento não só nos EUA, mas em China e Índia, afete a América Latina.

Como o senhor vê o Brasil nesse cenário?

LEVY: O Brasil tem, em termos relativos, uma posição mais sólida que os outros países da região. Tem um comércio mais diversificado, e suas contas fiscais não dependem tanto de um produto, como o México, que depende do petróleo, o Chile, do cobre, a Argentina, da soja, a Bolívia, do gás natural. O destino das exportações do Brasil também é diversificado.