Título: Oposição chama a ação de farsa
Autor: Carvalho, Jailton de
Fonte: O Globo, 08/04/2008, O País, p. 3

Presidente do Senado vê risco de duas CPIs terminarem em pizza

BRASÍLIA. A decisão do governo de limitar a investigação da Polícia Federal apenas ao vazamento do dossiê sobre os gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e de sua mulher, Ruth Cardoso, provocou protestos da oposição. O líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM), chegou a classificar a iniciativa do governo de farsa. Tucanos e democratas devem cobrar hoje do presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), a leitura do requerimento que propõe a criação de uma CPI exclusiva da Casa para investigar o mau uso dos cartões corporativos.

Para o líder do Democratas, senador José Agripino (AM), como a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, não tinha mais justificativa para evitar a entrada da Polícia Federal na investigação do dossiê contra o ex-presidente Fernando Henrique, vai agora tentar limitar a investigação:

- Primeiro, a ministra usou a máquina pública para fazer o dossiê e agora quer usar a Polícia Federal para garantir sua absolvição. Isso é revoltante e inaceitável. Encontraram uma forma marota de pedir que a Polícia Federal investigue apenas o que eles querem e não o que é preciso.

- O governo quer saber quem viu o assassinato e não quem assassinou - ironizou Virgílio.

Para presidente do DEM, PF concluirá que Dilma tem culpa

Na avaliação do presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), a cada nova ação Dilma se complica mais. Ele não acredita, contudo, que a PF compactue com a estratégia do governo de proteger a ministra-chefe da Casa Civil.

- Se a PF entrar no caso para valer, ela vai chegar à mesma conclusão que nós, de que a culpada é a ministra Dilma - observou Maia.

O líder do PPS, deputado Fernando Coruja (SC), suspeita que a iniciativa do governo de acionar a PF seja uma estratégia para esvaziar a instalação de uma CPI exclusiva no Senado para investigar o uso dos cartões:

- É de se pensar que, em função da possibilidade de uma CPI só no Senado, somente agora se tome alguma providência. Pode ser um receio do governo de que a CPI entre senadores se concretize. É uma hipótese.

Mas, se depender dos líderes da oposição no Senado, a nova CPI será instalada de qualquer jeito. O presidente do Senado reiterou ontem seu compromisso de ler hoje em plenário o requerimento que propõe a criação da nova CPI, mas não escondeu sua preocupação com o clima de confronto entre governo e oposição.

- Meu compromisso é de ler amanhã (hoje). Mas fico preocupado com essa situação. Realmente, o governo está usando sua maioria, na CPI Mista, para radicalizar o processo, o que não favorece a investigação. O risco é de vermos não apenas uma CPI terminar em pizza, mas duas - disse Garibaldi.

Agripino planeja indicar hoje mesmo os representantes do DEM para a CPI, e espera o mesmo comportamento dos demais líderes partidários do Senado:

- Quero ver o perfil dos indicados pelo governo para saber até onde eles estão dispostos a investigar.

O líder do PT na Câmara, Maurício Rands (PE), sinalizou para uma possível inflexão dos governistas, na CPI do Cartão Corporativo, que evite a instalação de outra CPI do mesmo teor que, para ele, seria supérflua. Entre os governistas, fala-se na possibilidade de aceitar a convocação de Dilma pela CPI. Outra tática poderia ser a aprovação de requerimento que transfira para a CPI o sigilo de alguns dos gastos presidenciais. Muitos entendem, no entanto, que isso esbarra na questão legal, que impede a divulgação dos do presidente.