Título: Polêmica envolve troca de cadeiras no BNDES e Vale
Autor: Melo, Liana
Fonte: O Globo, 09/04/2008, Economia, p. 26

Superintendente do banco tira licença e vai para direção da empresa

Liana Melo

RIO e BRASÍLIA. Foi com uma mensagem eletrônica intitula "Até breve" que o ex-chefe da Secretaria Executiva da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) Luciano Siani Pires despediu-se dos colegas de trabalho para assumir seu novo posto na Vale, como diretor de Planejamento Estratégico. A saída de Siani, que pediu licença sem remuneração, para a mineradora levantou um véu de polêmica, sobretudo porque a dança das cadeiras ocorreu pouco dias depois de a Vale receber financiamento de R$7,3 bilhões, o maior da história do banco para uma empresa.

O crédito à mineradora, que usará os recursos em projetos no Brasil e na amortização de dívidas, foi anunciado pelo presidente do BNDES, Luciano Coutinho, no último dia 1º. Seis dias depois, Siani já assumia seu novo cargo na Vale. Nem o BNDES nem a mineradora comentam a polêmica, mas funcionários do banco questionam a "moralidade" da troca de cargo. A saída de Siani foi noticiada ontem por Ancelmo Gois em sua coluna no GLOBO.

- Ontem, Siani era o todo-poderoso chefe de gabinete da presidência, controlando todo o fluxo de informações e decisões; hoje, é diretor de Planejamento da maior empresa devedora do banco - cutuca Maurício Dias David, economista da área de Insumos Básicos do BNDES, funcionário de carreira que foi membro da assessoria da presidência na gestão Carlos Lessa.

Marcílio: "Esse ir e vir é eticamente questionável"

Segundo a Comissão de Ética Pública, vinculada à Presidência da República, só os cargos de presidente e diretor do banco são obrigados a cumprir quarentena - período de quatro meses em que o servidor não pode atuar na área em que trabalhava no governo -, a não ser que regras do órgão estabeleçam o contrário. O cargo de Siani equivalia ao de superintendente. Procurado, ele não atendeu ao pedido de entrevista.

Funcionário de carreira do BNDES desde 1992, esta não é a primeira vez que Siani pede licença sem remuneração, que pode chegar a dois anos, para desenvolver projetos pessoais. A primeira vez foi em 1999 para fazer MBA em Finanças, nos Estados Unidos. Depois, Siani foi ser consultor da McKinsey em 2003 e agora, o funcionário troca o BNDES pela Vale. Antes de assumir a Secretaria Executiva do BNDES, Siani chegou a ocupar o cargo de chefe de Gabinete da presidência, na gestão de Demian Fiocca, que também é hoje diretor na Vale.

- Esse ir e vir é eticamente questionável. Esse profissional não pode negociar com o BNDES enquanto estiver na Vale - pontuou o ex-ministro Marcílio Marques Moreira, que foi presidente do Conselho de Ética Pública.