Título: FMI: recessão nos EUA e avanço maior do Brasil
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 10/04/2008, Economia, p. 27
Fundo eleva previsão de crescimento brasileiro de 4,5% para 4,8% este ano, contra expansão global de 3,7%
WASHINGTON. O crescimento da economia dos Estados Unidos já está quase estancado no momento. Ele será de meros 0,5% este ano. Isso levará o país a uma recessão ainda em 2008, provocando uma desaceleração global da qual o Brasil seria um dos poucos países a ficar praticamente a salvo - embora também venha a sofrer as conseqüências desse fenômeno, segundo a previsão divulgada ontem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
Seu economista-chefe e diretor de Pesquisas, Simon Johnson, disse que a crise de crédito nascida nos EUA fará o crescimento global cair para 3,7% este ano. Ou seja, meio ponto percentual a menos do que o próprio Fundo previra em janeiro passado e bem abaixo dos 4,9% registrados em 2007.
O Brasil, no entanto, teve a sua perspectiva de crescimento revisada para cima em relação ao que o FMI estimara há três meses, ficando bem acima da expansão global. O índice será de 4,8%. Isso significa uma melhoria de 0,3 ponto percentual em relação à previsão anterior para o Brasil.
- A economia brasileira está muito bem desde o ano passado. O quarto trimestre de 2007 no Brasil foi bem melhor do que nós esperávamos. O crescimento de 5,5% em 2007 está transbordando para 2008 em termos de cifra de expansão anual - disse Charles Collyns, vice-diretor de Pesquisas do FMI.
No informe Perspectivas da Economia Mundial, divulgado ontem, o Fundo diz que o crescimento brasileiro tem sido acelerado, justificando-o como conseqüência, principalmente, de "sustentáveis declínios nas taxas de juros e um sólido mercado de trabalho". A demanda doméstica também foi apontada como um dos principais motores do crescimento.
Collyns destacou, na apresentação do informe, que o FMI vê a possibilidade de o país continuar se dando bem "com base em políticas macroeconômicas disciplinadas e maior credibilidade".
- É realmente muito encorajador o grau que o Brasil atingiu, tornando-se mais resistente à queda da economia dos Estados Unidos e às tensões financeiras - disse ele, antecipando, porém, que o país sofrerá uma contaminação da crise, de forma que seu crescimento poderá cair para 3,7% em 2009. - Mas, ainda assim, essa desaceleração estará vindo de um nível bem mais alto do que tivemos antes.
Governos, agora, precisam se preocupar com inflação
Esse seria um índice ligeiramente menor do que o previsto para o mundo todo (3,7%) e bem maior do que o estimado para os EUA (apenas 0,6%). Ao traçar o perfil da brusca queda americana, Johnson disse que a expectativa é que os problemas com as hipotecas continuarão. A desvalorização dos imóveis deverá chegar a 20% este ano. E há outro fator preocupante:
- O que estamos enfatizando é que os problemas não estão apenas na área de habitação. Acreditamos que eles estão atingindo mais amplamente o setor de consumo. Além disso, haverá alguma fragilidade no mercado de trabalho nos EUA - afirmou Johnson.
Essas estimativas afetaram as bolsas americanas. O Dow Jones recuou 0,39%, e o Nasdaq, 1,13%.
Segundo Johnson, o mundo todo deverá ser preocupar mais agora em conter a inflação:
- As autoridades devem ter em mente a necessidade de reagir rapidamente se os riscos de desaceleração se materializarem. Nós, no entanto, pensamos que a inflação já é um problema bastante significativo nos mercados emergentes e, possivelmente, também em alguns países ricos.