Título: Nós e a China
Autor: Leitão, Míriam
Fonte: O Globo, 12/04/2008, Econoia, p. 34
O dólar é só uma parte - e talvez nem seja a maior - dos desafios que o nosso comércio internacional enfrenta neste momento. Problemas de logística, greve dos auditores fiscais e a complicada China. Um relatório preparado pela CNI, que será divulgado na segunda-feira, mostra que 76% do que o Brasil exporta para lá são produtos básicos, enquanto 95% dos itens chineses que entram aqui são manufaturados.
Exportar commodities não é demérito. Essa sempre foi uma idéia muito difundida, mas que não é verdadeira. Hoje, as commodities são parte fundamental da economia, e países desenvolvidos, como Canadá, Austrália, Estados Unidos, são grandes produtores de commodities. Porém há problemas nesta relação Brasil-China. A China está longe de ser um país de alta tecnologia, que se transforme, assim, num fornecedor de tantos manufaturados capazes de encher uma pauta inteira de exportação para o Brasil. E, segundo, sua voracidade no consumo de commodities é desequilibradora em todos os sentidos.
O comércio com a China tem crescido e tem vantagens. Uma delas é que, nos últimos anos, a China exportou deflação para o Brasil e para o resto do mundo. Este processo está acabando, mas não se pode negar que os produtos chineses ajudaram a manter os preços da economia mundial sob controle até recentemente. No entanto o país tem representado um concorrente feroz não apenas com a produção interna brasileira, mas também em relação aos principais destinos de nossas exportações: Estados Unidos e a vizinha Argentina.
Na segunda-feira, a CNI vai divulgar o Observatório Brasil China, um estudo trimestral que acompanha as relações entre os dois países. Os dados consolidados mais recentes que utiliza, os do ano de 2007, ilustram a enorme força que a China tem ganhado na competição por clientes internacionais.
Começando pelas relações entre Brasil e China propriamente ditas, no ano passado, o saldo brasileiro com o país voltou a ser deficitário. Isso não seria um grande drama a princípio, não fosse o modelo dessas trocas comerciais. As exportações para lá são extremamente concentradas em produtos básicos e, pior, está havendo o que a CNI chama de "primarização das vendas em algumas cadeias produtivas", ou seja, estamos passando a exportar produtos mais básicos. Olhando só alguns números, os valores são, de fato, excelentes. Entre 2004 e 2007, as exportações para os chineses dobraram. Porém, 60% disso são minérios e "sementes e oleaginosas" - leia-se, soja.
Vendo os dados chineses, é bem verdade, o Brasil vem aumentando sua participação nas importações do país, mas ainda representa somente 1,92% do total e tem perdido algumas oportunidades para concorrentes da própria Ásia.
Enquanto o Brasil se concentra nos básicos, a China faz o caminho inverso. Em 2007, os manufaturados já passaram a corresponder a 95% de tudo o que o Brasil compra deles, sendo que bens de capital e eletroeletrônicos são a metade. Os dois gráficos abaixo evidenciam isso. Eles mostram retratos exatamente opostos.
O estudo da CNI quis fazer a radiografia também do que ocorre internacionalmente, na competição dos produtos de ambos os países em outros dois países que são fundamentais para as nossas exportações: Estados Unidos e Argentina. A China é hoje o maior fornecedor do mercado americano, com 16,4% do total. O Brasil tem 1,31%, e perdeu espaço nos últimos dois anos. Em 30 produtos selecionados pela CNI, a China levou vantagem em 20. O Brasil só tem melhor posição nos itens mais intensivos em recursos naturais.
Na Argentina, a história é um pouco diferente, mas não muito. Pegando dois pontos, em 2003, os produtos chineses equivaliam a 5,2% das importações deles; os brasileiros, a 33,9%. Em 2007, o Brasil caiu um pouco, ficou com 32,4% e a China aumentou sua participação para 11,3%. Sendo que tem aumentado bastante a importação argentina de móveis e calçados chineses, produtos com os quais tínhamos boa entrada. Ou seja, mesmo com o enorme preço do frete e todas as outras dificuldades deles, não estamos conseguindo competir. Entre 2003 e 2006, o Brasil mantinha melhor desempenho em 16 de 30 itens selecionados. Mas o quadro vem mudando. No quarto trimestre de 2007, estivemos melhores em apenas nove.
Contudo, como disse no começo, os problemas do comércio internacional brasileiro são vários. A China não é o maior deles. Em vários casos, é a solução. A logística deficiente nos tira competitividade, e este tipo de barreira inesperada, como a greve dos auditores da Receita, é um custo a mais a ser carregado pelo nosso comércio exterior.