Título: O peso dos sem-carteira
Autor: Ribeiro, Fabiana
Fonte: O Globo, 12/04/2008, Economia, p. 35

IBGE: se informais não fossem contabilizados como empregados, taxa de desocupação seria de 38%.

Os trabalhadores informais engrossam o contingente dos ocupados do Brasil. E, por isso, são considerados nos cálculos da taxa de desemprego das seis regiões metropolitanas do país, medida pelo IBGE. No entanto, se esses profissionais fossem excluídos da apuração, esta taxa de desocupação saltaria dos atuais 8,7% para 38%. A informalidade é um dos temas discutido na série de reportagens "Desemprego Zero", iniciada no último domingo e que apresentou, ao longo da semana, seis municípios brasileiros sem desemprego.

- Se somarmos os seis milhões de profissionais sem carteira e por conta própria à massa de desocupados (dois milhões), haveria oito milhões de desocupados. O que nos levaria à taxa de desemprego de 38%. Incluir os informais é uma recomendação internacional, que considera desocupado quem não tem trabalho - disse Cimar Azeredo, economista do IBGE, ressaltando que a pesquisa do IBGE não confere o mercado de trabalho no interior do país.

Na apuração de desemprego em São Paulo feita pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a informalidade também é considerada. Segundo Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico da instituição, a informalidade nas regiões urbanas pode representar 40% da força de trabalho. E no meio rural, mais de 50%.

- Entre os trabalhadores domésticos, essa taxa está acima de 80% - calculou o diretor, frisando que técnicos de países como China, Espanha e Estados Unidos vêm conhecer a pesquisa de emprego da entidade.

A grosso modo, a cada emprego com carteira, há uma outra ocupação, que, naturalmente, pode ser informal, salienta Rodolfo Torelly, diretor de Emprego e Salário do Ministério do Trabalho. Ainda que a informalidade seja alta, ele pondera que a criação de empregos no país vem batendo recordes de criação de vagas.

- E com qualidade, dado o aumento de empregos com carteira - acrescentou ele, em referência ao Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, que registra, a cada mês, as contratações e demissões das empresas brasileiras.

Mercado de trabalho pode ser gargalo ao crescimento

A informalidade é apenas mais um dos problemas do mercado de trabalho brasileiro. Para Márcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o país está no limiar do problema da qualificação. Se o Brasil crescer 5% ao ano até 2010, o mercado de trabalho não tem como acompanhar as demandas das companhias, destacou.

- Sobram trabalhadores, porque não há um planejamento em formação. Então, é preciso adequar os requisitos patronais ao mercado de trabalho. O problema é que o país não tem um sistema de intermediação de mão-de-obra eficiente. Há cidades que são pólos industriais, mas as pessoas não são qualificadas para a indústria - explicou ele, enfatizando que a taxa de desemprego também avança quando se consideram profissionais com mais anos de estudo.

Em sua avaliação, as empresas deveriam formar os profissionais na prática.

- As empresas gastam para selecionar trabalhadores, mas não resolvem a questão. Contratam e, após dois meses, demitem dois terços deles, por não terem formação no local de trabalho.