Título: A vocação em decadência
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 16/04/2008, Mundo, p. 37
Os cartazes expostos no corredor central do Seminário St. Joseph, na cidade de Yonkers, em Nova York, afirmam: ¿Através da fé nós crescemos.¿ Mas um retrato das salas de aula no mesmo corredor diz o contrário. Há meio século, várias centenas de candidatos estudavam para serem ordenados padres da Arquidiocese de Nova York. Hoje, há apenas 22 matriculados.
Há um dado ainda mais preocupante. Embora seis homens devam tomar as ordem sacras em maio, não há candidatos registrados no primeiro ano do programa de teologia.
Funcionários do seminário atribuem a queda repentina de interesse pelo programa à exigência de novos requisitos para o curso preparatório. Mesmo assim, é uma queda e tanto.
Religiosos esperam que a mera presença do Papa Bento XVI no seminário, em visita no sábado, sirva de estímulo aos seminaristas. Também será uma oportunidade para que se misturem a 20 mil jovens e possam difundir o conceito da vocação.
A ascensão de uma cultura secular e materialista, a relutância dos jovens em aceitar o celibato e críticas à reação da Igreja a casos de escândalos sexuais contribuíram para a queda, dizem religiosos.
Diretores de vocação reconhecem que os escândalos sexuais abalaram a confiança pública, mas resolveram focar sua campanha de marketing numa mensagem mais otimista.
O reverendo Luke Sweeney, diretor de vocações de uma arquidiocese cuja área de cobertura inclui Bronx e Manhattan, diz que a Igreja Católica precisa fortalecer o sacerdócio, em processo de envelhecimento.
¿ Como podemos resgatar o fator cool do sacerdócio? Se não o vendermos, não podemos pedir legitimamente que um jovem considere o sacerdócio como vocação ¿ diz.
Apesar de o número de matriculados estar em queda, os seminaristas de hoje refletem as mudanças demográficas da região, com uma presença mais forte de aspirantes hispânicos. Mas a maior mudança está na idade e no perfil dos seminaristas. Décadas atrás, ingressavam adolescentes. Hoje, muitos já têm diploma de faculdade e trabalharam com negócios, ciências e até na área militar. São experiências que conferem a eles um grau de empatia maior junto aos colegas que os recebem.
¿ Eles têm mais experiência no mundo. Provavelmente, têm mais segurança na escolha que fizeram ¿ diz o bispo Gerald Walsh, reitor de St. Jopeph.
Entre os seminaristas há professores, engenheiros, executivos e até um diretor de funerais.
No refeitório do seminário, construído para atender simultaneamente a centenas de pessoas, poucas mesas comportam todos os alunos.
Anthony Mizzi-Gili Jr., seminarista no terceiro ano, olha o espaço em volta mas se recusa a parecer desestimulado.
¿ Mostra que a vocação ainda existe. Apesar do número, ainda estamos aí. Jornal: O GLOBO Autor: Editoria: O Mundo Tamanho: 449 palavras Edição: 1 Página: 36 Coluna: Seção: Caderno: Primeiro Caderno
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