Título: papa diz sentir vergonha por escândalo de pedofolia
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 16/04/2008, Mundo, p. 37
Bento XVI chega aos Estados Unidos e afirma que abusos sexuais cometidos por sacerdotes o fazem sofrer. Mas vítimas não consideram declaração suficiente
José Meirelles Passos
Cerca de 45 minutos depois do seu avião ter saído de Roma, ontem, em direção aos Estados Unidos, o Papa Bento XVI apanhou um microfone e, dirigindo-se aos 70 jornalistas que o acompanhavam na viagem, os surpreendeu com um inesperado ato de contrição em nome da Igreja Católica. Ele disse que se sentia ¿profundamente envergonhado¿ com os abusos sexuais cometidos por sacerdotes nos EUA.
¿ É um grande sofrimento para a Igreja nos EUA, para a Igreja em geral, e para mim, pessoalmente, que isso tenha acontecido. É para mim difícil entender como foi possível que sacerdotes traíssem dessa maneira a missão que tinham em relação a essas crianças. Estou profundamente envergonhado e nós faremos o possível para que isso não aconteça de novo ¿ disse o Pontífice, que horas depois, no fim da tarde, seria recebido pelo presidente George W. Bush, a primeira-dama, Laura, e a filha mais velha do casal, Jenna.
O escândalo de abuso sexual de crianças por sacerdotes católicos chocou os EUA em 2002. Desde então, quase cinco mil padres foram denunciados por cerca de 12 mil pessoas, o que significa mais de 10% de todos os 42 mil sacerdotes nos Estados Unidos. A Igreja já teve que desembolsar mais de US$2 bilhões para vítimas de abusos sexuais.
Ele tocou no assunto motivado por uma pergunta de um dos repórteres. Dias antes seus assessores já haviam antecipado que o Papa planejara mencionar o tema num dos eventos em que participará nos EUA. Não se esperava, no entanto, que ele fosse tão direto e se estendesse tanto a respeito ao ser perguntado. Até então Bento XVI falara muito pouco em público sobre os abusos.
¿ Nós vamos, definitivamente, excluir os pedófilos da missão sagrada. É mais importante ter bons sacerdotes do que muitos sacerdotes. Esperamos poder fazer, e faremos todo o possível, no futuro, para curar essa ferida ¿ prometeu o Papa.
Ele acrescentou que a pedofilia ¿é absolutamente incompatível com o sacerdócio¿. E fazendo uma distinção entre sacerdotes homossexuais e os que molestam crianças, insistiu:
¿ Não falaria neste momento sobre homossexualidade, mas sobre pedofilia, que é outra coisa. Vamos, definitivamente, excluir os pedófilos da missão sagrada. Culpados de pedofilia não podem ser sacerdotes ¿ disse o Papa que, quando presidia a Congregação para a Doutrina da Fé, foi selecionado por João Paulo II para decidir a punição de padres acusados de abuso sexual.
Quando o avião tocou o solo na Base Aérea de Andrews, nos arredores de Washington, as declarações feitas no início do vôo já reverberavam em todo o país. E não pareceram suficientes para aplacar a indignação de vítimas:
¿ É fácil e tentador se concentrar nos sacerdotes pedófilos. O mais difícil, mas crucial, é se concentrar no problema mais amplo: a cumplicidade no restante da hierarquia da Igreja ¿ protestou Peter Isely, diretor da Rede de Sobreviventes dos Abusos de Sacerdotes (SNAP, na sigla em inglês), dos EUA.
David Clohessy, outro diretor daquela entidade, emendou:
¿ Pedidos de desculpas e promessas de reforma são apropriadas mas inadequadas. O Papa tem vastos poderes e oportunidade de dar segurança às crianças, mas ainda não fez isso.
As palavras de Bento XVI tampouco convenceram Robert Costello, que sofreu abusos de um padre quando tinha dez 10 anos, em Massachusetts:
¿ Acho que essas declarações foram ensaiadas. Por que ele disse que esse escândalo causou grande sofrimento para a Igreja e para ele, pessoalmente, sem reconhecer a dor que sofrem as próprias vítimas dos abusos?
Imigração será tema de reunião com Bush
A entrevista no avião, que a mídia americana batizou como ¿Pastor Um¿ ¿ numa analogia ao ¿Air Force One¿, o jato da Casa Branca ¿ tinha sido cuidadosamente preparada pelo Vaticano. Os 70 jornalistas enviaram perguntas por escrito vários dias antes do embarque. Assessores do Papa escolheram apenas cinco delas, e não permitiram que os repórteres fizessem perguntas adicionais ontem.
Bento XVI contou que hoje, na Casa Branca, conversará com Bush sobre vários temas, em especial a imigração:
¿ Tenho visto a amplitude desse problema, e acima de tudo o grave problema da separação de famílias. Isso é realmente perigoso para a estrutura social, moral e humana dos países ¿ disse o Papa, acrescentando que pediria aos EUA para ajudar mais os países de onde se originam os imigrantes. ¿ A solução fundamental é que não haveria necessidade de emigrar se houvessem empregos suficientes.
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