Título: O remédio acaba sendo pior do que a doença
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Fonte: O Globo, 18/04/2008, O Mundo, p. 31

Para Alejo Vargas, professor de ciências políticas da Universidade Nacional da Colômbia, há avanços no país, como o fortalecimento da força pública e da Justiça. Ele diz que o paramilitarismo continua forte regionalmente, embora de forma mais sutil que no passado. Vargas falou ao GLOBO por telefone, de Bogotá.

Por que o escândalo da parapolítica não tem afetado a imagem do governo?

ALEJO VARGAS: Criou-se na sociedade a idéia de que para derrotar as Farc vale tudo. Como dizem alguns, o remédio pode acabar sendo pior do que a doença. Este é justamente o grande drama da Colômbia. E para o cidadão comum existe uma diferença entre o Congresso e o governo do presidente Uribe. Nos países da nossa região, os Congressos têm pouco prestígio. Já os governantes são vistos como os salvadores, os messias, os caudilhos.

Um terço do Congresso está na mira da Justiça. Isso representa avanço ou retrocesso em relação ao passado?

VARGAS: Há avanços em alguns campos. É preciso reconhecer alguns esforços do governo. Por exemplo, o fortalecimento da força pública e a desmobilização dos chefes paramilitares, o que contribuiu para o avanço desse processo da parapolítica. O governo também diz que, se há julgamento de congressistas, é porque ele próprio criou as condições. E isso é verdade. Vale lembrar que a Corte Suprema assumiu um papel muito ativo no julgamento dos parlamentares e até o momento não parece ter sido obstruída. Mas não é verdade que o paramilitarismo tenha se desmobilizado. Há comportamentos mafiosos preocupantes, que continuam tendo uma grande presença em nível regional. Não necessariamente eles se expressam como no passado, com assassinatos. Hoje os mecanismos de intimidação da população são provavelmente mais sutis.

Até que ponto o escândalo da parapolítica atrapalha a governabilidade?

VARGAS: A relação entre o Executivo e o Legislativo gera preocupação em alguns setores. Acredita-se que dificilmente o Congresso pode ter controle político para legislar adequadamente. Alguns políticos, inclusive da bancada do governo, defendem a antecipação das eleições do Congresso (marcadas para 2010).

Quais são as perspectivas?

VARGAS: O panorama não é nada favorável. Devem ser aprovadas algumas medidas, mas que não tocam o cerne do problema. Seria preciso um combate profundo em nível local e regional em todos os poderes. Não acredito em mudanças.