Título: Parapolítica se alastra na Colômbia
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Fonte: O Globo, 18/04/2008, O Mundo, p. 31

Já chega a um terço o número de parlamentares investigados ou presos por vínculo com milícias.

BOGOTÁ

A maioria dos blocos paramilitares colombianos se desmobilizou, mas suas ligações com congressistas ou mesmo integrantes das Forças Armadas continuam vindo à tona, no chamado escândalo da parapolítica. Ontem, novas denúncias movimentaram a Colômbia, entre elas acusações que envolvem a presidente do Congresso, Nancy Patricia Gutiérrez, o deputado Javier Ramiro Devia, mais um coronel do Exército e seis militares. Ao todo, 51 congressistas são investigados pela Corte Suprema, 29 já estão presos e 18 renunciaram à imunidade parlamentar para serem investigados pela Procuradoria e não pelo tribunal superior. Ou seja, um terço de seus integrantes tem contas pendentes com a Justiça, por vínculos com paramilitares ou traficantes.

Os números sobem a cada dia e são ainda maiores se forem levados em conta governadores, prefeitos, vereadores e ex-congressistas. Entre os implicados, está o senador Mario Uribe, fundador do Colômbia Democrática, primo do presidente Alvaro Uribe e peça-chave na coalizão de governo. Líderes paramilitares o comprometeram em depoimentos, levando-o a ser acusado de acordo para delinqüir. Há partidos como o Colômbia Viva em que 100% dos congressistas estão presos ou sendo investigados. Mas os partidos seguem legislando, através dos suplentes.

Numa denúncia envolvendo uma ex-colega de Parlamento e até o ex-marido, a senadora Nancy Patricia Gutiérrez foi acusada ontem de ter recebido apoio de paramilitares para se eleger em 2006. A denúncia foi feita pela ex-parlamentar Rocío Arias. Presa por ligações com os paras, Rocío afirmou que a senadora teria recebido apoio de John Fredy Gallo, conhecido como o Pássaro, comandante de um bloco das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), em Cundinamarca. Nancy se defendeu, acusando o ex-marido de tentar acabar com sua carreira com a ajuda da senadora opositora Piedad Córdoba.

- Meu ex-marido há seis anos torna minha vida impossível e se juntou a esta situação - disse Nancy, do partido governista Mudança Radical.

Outro congressista acusado ontem é Javier Ramiro Devia, do Partido Conservador. Na véspera foram outros três: senador Carlos García Orjuela, do partido La U, o senador Eduardo Enríquez Maya e a deputada Myriam Paredes, conservadores.

O Congresso que vê sua legitimidade afetada é o mesmo que aprovou a Lei de Justiça e Paz, que oferece benefícios a paramilitares que larguem as armas.

- Os legisladores aprovaram uma lei com conseqüências dramáticas para a população rural, ao legalizar propriedades usurpadas por paramilitares. Bastam cinco anos de posse para obter o título - critica Laura Bonilla, da ONG Corporação Arco-Íris.

Apesar de atingir partidos da base do governo, o escândalo não afetou a popularidade de Uribe, em torno de 70%.

Militares estariam ligados a traficante de drogas

Os escândalos respingam também nas Forças Armadas. Sete militares foram presos ontem acusados de conspiração, assassinato e laços com ex-paramilitares envolvidos numa guerra por rotas de contrabando de cocaína no norte do país. O tenente-coronel Álvaro Zambrano é o primeiro oficial de alta patente a ser investigado. Segundo o ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, há provas de que os suspeitos tinham vínculos com Daniel Rendon, o Don Mario, um ex-paramilitar e um dos traficantes mais procurados do país.

- Não vamos tolerar militares cometendo crimes - afirma o ministro.

Grupos de direitos humanos advertem que ex-paramilitares mantiveram suas redes criminosas funcionando, mesmo presos, e que milhares de desmobilizados se reagruparam em organizações criminosas. Apesar do escândalo, o presidente Alvaro Uribe disse ontem estar confiante de que as instituições não serão abaladas.

- Meu apelo é a não abrir as portas às tentações da instabilidade institucional - disse.

Um retrato trágico do conflito é que a Colômbia é hoje o segundo país em número de deslocados internos, com quase 4 milhões em 2007 - só superados pelos 5,8 milhões do Sudão - informa o Centro de Controle dos Deslocamentos Internos (IDMC na sigla em inglês). Só no ano passado foram 320 mil novos casos.