Título: Papa ouve relatos e reza com vítimas de abusos
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 18/04/2008, O Mundo, p. 33

Encontro emocionado em Washington foi o primeiro entre o Pontífice e um grupo atingido por padres pedófilos.

WASHINTON. O Papa Bento XVI surpreendeu a todos, ontem à tarde, com um gesto de humildade: recebeu cinco vítimas de abusos sexuais de sacerdotes nos Estados Unidos para um emocionado encontro de meia hora na capela da Nunciatura Apostólica, na capital americana. O grupo, que incluía homens e mulheres, era todo de Boston e estava acompanhado do cardeal da cidade, Sean P. O¿Malley, que convencera o Pontífice a receber as vítimas.

¿Eles rezaram com o Santo Padre que, em seguida, ouviu os seus relatos pessoais e lhes ofereceu palavras de estímulo e esperança. Sua Santidade lhes garantiu que faz orações por intenção deles, por suas famílias e por todas as vítimas de abuso sexual¿, dizia o comunicado divulgado mais tarde pelo Vaticano.

O encontro, o primeiro entre o Papa e vítimas de abusos cometidos por padres, foi planejado, e realizado, com extrema discrição. Ele não aparecia na agenda do Papa, e foi mantido em segredo até cerca de uma hora depois, quando o Vaticano divulgou a nota a respeito. Ela, no entanto, sequer informava o número de vítimas ou sua procedência: referia-se apenas a ¿um grupo de pessoas¿. O próprio cardeal O¿Malley só soube na manhã de ontem que a reunião seria realizada. Ele vinha insistindo há meses para que esse encontro ocorresse.

Tentativa de reunião começou seis anos atrás

Segundo ele, essa iniciativa do Papa poderá ajudar a fazer com que algumas das vítimas dos abusos sexuais voltem a se conectar com a fé católica:

¿ Esse gesto me dá uma oportunidade de estender a mão aos sobreviventes e ajudá-los a perceber que na Igreja Católica sentimos uma grande dor pelo que aconteceu com eles ¿ disse o cardeal.

O¿Malley vinha tentando convencer o Vaticano a programar um encontro do Papa com as vítimas há cerca de seis anos, quando começaram a ser publicadas reportagens sobre os abusos, motivadas por um crescente número de denúncias.

Um estudo da Conferência Nacional dos Bispos Católicos dos EUA mostrara que 4.392 sacerdotes tinham sido acusados de abusar de 10.667 pessoas entre 1950 e 2002. E Boston foi considerada o epicentro dos abusos. Diante disso, João Paulo II, que marcara uma viagem para a América do Norte em 2002, decidiu só sobrevoar os EUA: ele visitou o Canadá e o México.

Em dezembro daquele ano, o então cardeal de Boston, Bernard F. Law, acusado de omissão por não punir padres pedófilos, decidiu renunciar e O¿Malley foi nomeado para substituí-lo. Ao saber que o novo Papa planejava visitar os EUA, o cardeal voltou a insistir no encontro.

¿ Acho que a realização dessa conversa entre o Papa e as vítimas foi muito positiva para ajudar a entender os sérios danos que o abuso de crianças causou. Creio que no passado as pessoas não estavam cientes dos efeitos disso a longo prazo ¿ disse ele ontem.

O reverendo Keith F. Pecklers, professor de teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, que também viajou a Washington, disse que Bento XVI deu ¿um enorme passo à frente¿. Segundo ele, a delegação papal tinha sido informada de que o Pontífice provavelmente falaria a respeito dos abusos num sermão na Catedral de St. Patrick, em Nova York. E todos foram surpreendidos quando ele tocou nisso já a bordo do jato que o levou aos EUA.

Bento XVI voltou ao tema na reunião com arcebispos quarta-feira em Washington, e mais uma vez ontem, na missa campal num estádio de beisebol:

¿ Já são três referências, e agora houve essa reunião com as vítimas. Isso significa que ele está tentando comunicar que leva isso a sério, e que se trata de um assunto essencial na Igreja americana agora. Ele quer dar um claro sinal aos EUA de que percebeu a gravidade da situação ¿ disse Pecklers.

Na missa no estádio lotado por 46 mil pessoas, e que abriu as suas portas cinco horas antes da cerimônia, Bento XVI reconheceu o problema da pedofilia na Igreja, e buscou uma reconciliação com os fiéis:

¿ Nenhuma de minhas palavras poderia descrever a dor e os danos infligidos por tais abusos ¿ disse ele, acrescentando que a Igreja tem trabalhado ¿para lidar honesta e justamente com essa trágica situação, e para garantir que as crianças estejam seguras¿.

Em seguida, o Pontífice fez um apelo duplo aos fiéis:

¿ Hoje eu incentivo cada um de vocês a fazer o que puder para promover a cicatrização e a reconciliação, e para ajudar aqueles que foram feridos. Eu também peço que amem os seus sacerdotes e os aceitem pelo excelente trabalho que fazem.

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