Título: Por trás do enem
Autor: Ribeiro, Pedro Flexa
Fonte: O Globo, 21/04/2008, Opinião, p. 7
Amais importante razão para se empreender avaliações na área do ensino é que delas se possam extrair conseqüências pedagógicas que promovam melhoria de qualidade.
O Exame Nacional do Ensino Médio foi concebido para avaliar o desempenho dos alunos ao final da escolaridade básica. A mesma prova é aplicada do Oiapoque ao Chuí. É a maior avaliação do gênero na América Latina e uma das maiores do mundo. Em um país de dimensões continentais e com as diversidades culturais e regionais que o Brasil apresenta, é extremamente audacioso pretender avaliar o desempenho de todos com base em um critério único.
A prova é constituída de uma redação e 63 questões objetivas. Não há questões específicas para cada matéria. Em vez de testar os conhecimentos dos alunos nas diversas disciplinas que compõem o currículo, como fazem os vestibulares tradicionais, o Enem pretende que os estudantes demonstrem o domínio de competências e habilidades. A decisão de propor uma avaliação desse tipo representa, para escolas e professores de todo o país, uma verdadeira convocação à mudança. Essa estratégia foi adotada para induzir a reforma do ensino médio, de acordo com diretrizes e parâmetros curriculares em vigor.
No princípio, os resultados do Enem eram prioritariamente comunicados aos alunos e às escolas. O governo enviava para cada instituição um boletim que permitia a análise do desempenho em cada competência. Com isso, a escola podia ter um claro diagnóstico do trabalho que vinha realizando. Era possível identificar os ajustes que se faziam necessários e assim orientar o planejamento do ano seguinte. O investimento feito efetivamente possibilitava a melhoria do ensino.
Nos últimos anos, porém, houve uma imprevista guinada na forma de divulgação dos resultados do Enem. A principal destinatária dessa informação passou a ser a opinião pública. À sua revelia, a partir do desempenho dos alunos, os estabelecimentos passaram a ter suas médias publicadas em um ranking com medições milimétricas. A mudança de foco e procedimentos teria o intuito de alertar e mobilizar a sociedade para o grande desafio da melhoria da qualidade do ensino e promover a maior responsabilização de todos os envolvidos no processo educativo.
Mas a conversão desse exame em baliza da qualidade de ensino é improviso que leva a visões distorcidas. Em vários aspectos o Enem é instrumento falho para se avaliar a complexidade do trabalho desenvolvido pelas instituições de ensino. Além disso, como em qualquer sala de aula, a simples divulgação de notas e médias oferece poucos subsídios para a correção de rumos.
Este ano o governo surpreende ainda mais, atrasando o envio dos boletins para as escolas. Decorridos oito meses desde o exame de 2007, o ano letivo avança. Chegamos ao mês de abril e até o presente momento os colégios ainda não tiveram acesso às informações que mais deveriam importar. Em todo o país, os professores do ensino médio permanecem sem o retorno que indicaria os ajustes a serem feitos para uma melhoria de qualidade.
O objetivo de mobilizar a sociedade para o tema da qualidade de ensino vem sendo atingido. O assunto rende matérias na imprensa e tem-se a impressão de que o país apura e avança.
Mas as escolas ainda não puderam extrair dos resultados do Enem as informações que são efetivamente relevantes. Enquanto tiverem seu trabalho reduzido à condição de objeto de medições externas e os boletins não chegarem, a avaliação não surtirá efeito em sala de aula. O tempo passa e com ele escoa-se o principal sentido do investimento feito pelo país.
PEDRO FLEXA RIBEIRO é educador