Título: Homenagem brasileira em gana
Autor: Aggege, Soraya
Fonte: O Globo, 21/04/2008, Economia, p. 13
ACRA (Gana). Descendente de escravos brasileiros que retornaram à África no século XVIII, depois de comprarem sua liberdade, o povo Tabom recebeu o presidente Lula ontem em Acra com escola de samba, ao ritmo de ¿Lula-lá-lá¿, música que marcou suas campanhas eleitorais. Lula visitou a Brazil House, onde vivem o rei Nii Azumah V e seus parentes, todos descendentes dos escravos que voltaram. A casa, que funciona também como um centro cultural, foi restaurada pelo governo brasileiro. Lula disse que, desta vez, os tabom se reencontraram com o Brasil em condições que orgulham o país, que pôde oferecer a reforma da casa, que faz fundos com o Oceano Atlântico, onde funcionou o primeiro porto de Acra.
Os tabom somam hoje cerca de duas mil pessoas e ganharam esse nome porque, em sua chegada a Gana, sabiam falar português e usavam cumprimentos como ¿Como está? Está bom!¿. Em Acra, a língua oficial é o inglês. Hoje, os tabom falam inglês e gã-mashi, língua do povo Gã, que os recebeu em seu retorno do Brasil.
¿ Ao longo destes quase 200 anos de retorno de nossos ancestrais, a língua gã ganhou algumas palavras em português, como prego, tábua, camisa e algodão ¿ disse o tabom Michael Akwei Moffatt, em espanhol.
Professor de francês e espanhol na comunidade, Moffatt quer ir ao Brasil para aprender o português:
¿ Queremos ensinar o português, principalmente para nossas crianças.
Os tabom trouxeram do Brasil conhecimentos que se tornaram preciosos em Acra, como a alfaiataria e a carpintaria. Hoje, preservam pouco das tradições. A maior parte foi convertida ao catolicismo e cerca de 15% mantêm parte dos cultos afros. Outros 10% são muçulmanos:
¿ Para esses que mantêm a religião original, existe Xangô, por exemplo. Xangô é um pequeno deus, não é o grande Deus.
Além dos tabom, a África registra várias comunidades de descendentes de ex-escravos brasileiros. Em Gana, apenas os tabom são conhecidos como ¿retornados¿. A maior parte está no Benin, na Nigéria e no Togo, onde formam clãs e ainda adotam sobrenomes como Souza, Cardoso ou Silva. As estimativas, segundo a embaixada brasileira em Gana, são de que até o século XIX cerca de dez mil afro-brasileiros voltaram à África. Tanto que, em vários países da África Ocidental, há bairros e escolas chamados Brazil. (Soraya Aggege, enviada especial) Jornal: O GLOBO Autor: Editoria: Economia Tamanho: 429 palavras Edição: 2 Página: 13 Coluna: Seção: Caderno: Primeiro Caderno
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