Título: Perder peso por uma questão de sobrevivência
Autor: Marinho, Antônio
Fonte: O Globo, 20/04/2008, Ciência/Saúde, p. 42

Médicos e pacientes discutem os prós e contras do tratamento clínico e da cirurgia para curar obesidade grave.

Aos 18 anos, Leila de Morais, era magra. Dez anos depois, devido à compulsão alimentar, o seu peso havia triplicado, e ela chegou a 174kg. Hoje, aos 35 anos, e seis meses depois de se submeter à operação de redução de estômago, está com 120kg. Sua meta são 74kg. Sônia Fortunato Gonçalves também encarou o bisturi para não morrer. Há duas semanas, entrou num hospital com 167kg e começa a emagrecer. Elas sofrem de obesidade mórbida, quando o índice de massa corpórea (IMC) está acima de 40kg/metro quadrado e há doenças associadas. Leila e Sônia têm uma certeza: se antes de engordar tanto tivessem recebido atendimento multidisciplinar, com médico, nutricionista, psicólogo e profissional de educação física,, não precisariam da operação.

No caso delas a operação, chamada bariátrica, foi a última saída. Recurso que os 40 mil obesos mórbidos do Rio estão longe de conseguir. A situação é mais grave porque em todo estado apenas o Hospital de Ipanema (média de uma cirurgia por semana) e o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ (média de uma por mês), oferecem o procedimento na rede pública. A fila é de 4 mil pacientes em cada unidade. Tem gente que espera até 6 anos pela chance, como Sônia.

Faltam recursos humanos e financeiros, além de infra-estrutura, para atender o crescente número de casos de obesos mórbidos, e muitos morrem na fila. Na rede privada, só a cirurgia bariátrica custar de R$20 mil a R$30 mil, fora gastos com o pós-operatório, que requer visitas mensais a endocrinologista, nutricionista e psicólogo. Dois anos depois da operação, mais gastos com cirurgias plásticas.

Pacientes operados recuperam parte do peso

Quem chega ao hospital do Fundão não encontra vaga. O serviço atende apenas 50 pessoas. Rosimeire Lima da Silva, diretora da ONG Grupo de Resgate à Auto-Estima e Cidadania do Obeso (Graco), encaminha pacientes ao HUCFF e recebe pelo menos 400 obesos por mês, na sede da Penha.

¿ No Fundão, eles fazem inscrição e aguardam, sofrendo com as doenças associadas à obesidade. Vivem na esperança de serem chamados. A previsão é de ser operado em quatro a cinco anos. E o HUCFF não opera ninguém acima de 160 quilos. No Graco temos indivíduos com mais de 200kg. ¿ diz Rosimeire, operada em 2001.

Ela, que tem 1,60m, chegou a pesar 145kg, reduziu para 65kg e agora pesa 74kg, afirma que o melhor é investir na prevenção da obesidade e tratar de forma eficaz as pessoas com IMC acima de 30 (doença moderada) para evitar que cheguem à morbidade. A cirurgia é de alto risco e o pós-operatório exige muito comprometimento do paciente.

Existe muita desinformação à respeito da cirurgia bariátrica e de suas complicações. O obeso mórbido terá que se cuidar pelo resto da vida:

¿ Conheço pessoas que operam e acham que isso resolverá todos os seus problemas, e que elas não precisarão mais de dieta, médico e psicólogo. Resultado: engordam novamente. Já vi casos de pacientes que não tinham indicação para a cirurgia e que poderiam ter insistido em emagrecer apenas com o tratamento clínico, mas passaram a comer mais e abandonaram remédios só para preencher os critérios cirúrgicos ¿ conta.

Tratamento multidisciplinar pode evitar o bisturi

Ela acredita que o bom tratamento clínico, com médicos, nutricionistas, psicólogos, professores de educação física e outros profissionais resolveria a maioria dos casos de obesidade, antes que a cirurgia seja inevitável. Mas admite que isso é difícil porque a maioria dos gordinhos não recebe cuidado multidisciplinar. Além disso, eles fazem dieta malucas, se entopem de fórmulas à base de anfetaminas e são sedentários. Sem falar nos casos de depressão e de compulsão alimentar.

Antônio Augusto Peixoto de Souza, coordenador do programa de cirurgia bariátrica (Prociba) do HUCFF, diz que a cirurgia deve indicada na falha do tratamento clínico.

¿ O tratamento é mal feito. No Brasil há abuso de anfetaminas. Um pessoa com IMC acima de 40 tem limitações para exercícios. Muitas não conseguem nem fazer a própria higiene, se locomover. Entre os mais pobres as dificuldades são maiores. A obesidade deve ser vista como problema de saúde pública ¿ diz.

O cirurgião Marco Antônio Leite, coordenador do programa de cirurgia bariátrica do Hospital de Ipanema, concorda. A taxa de obesidade mórbida chega a 5% e no Rio. Enquanto o Rio tem dois centros capacitados, em São Paulo são 20. Ele acha que deveria haver maior atenção e investimentos dos governos federal, estadual e municipal na área:

¿ Estudo na ¿The New England Journal of Medicine¿ com homens de 25 anos a 40 anos mostrou que os obesos mórbidos tinham 12 vezes mais chances de morrer do que indivíduos com peso normal. E a cirurgia elimina doenças associadas, como diabetes, hipertensão e apnéia do sono.

Para Márcio Mancini, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, antes de buscar a cirurgia é preciso fazer pelo menos um ano de acompanhamento clínico com consulta mensal a endocrinologista e nutricionista.

¿ Se não responde ao tratamento ou responde mas recupera peso e preenche os critérios para cirurgia deve-se pensar na operação. Uma vez indicada, a triagem precisa ser rigorosa, inclusive com avaliação psicológica. A cirurgia é o último recurso e tem índice de mortalidade de 0,5% a 1%. A maioria recupera, a longo prazo, de 10% a 20% do peso perdido. Só traz benefícios quando bem indicada e a pessoa segue à risca as recomendações no pós-operatório ¿ diz.

Walmir Coutinho, professor do curso de pós-graduação em endocrinologia na PUC-Rio, diz que a cirurgia é um avanço. O resultado ruim acontece em casos mal selecionados.

¿ Há pessoas que perdem bastante peso sem a operação. Tive paciente que perdeu 20 quilos e atingiu, no seu caso, um resultado tão bom quanto o da cirurgia bariátrica. Mas para a maioria dos obesos mórbidos isso é muito difícil ¿ comenta.

A americana Carolyn Clancy, diretora da Agência de Saúde e Pesquisa de Qualidade dos EUA, afirma que 7% das pessoas que passaram pela cirurgia precisam ser internadas novamente por conta de complicações. Quatro em cada dez pessoas podem ter problemas seis meses após a cirurgia.

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