Título: Para governo, petróleo eleva preço de comida em 20%. Lula ataca leviandade
Autor: Oliveira, Eliane; Gois, Chico de
Fonte: O Globo, 24/04/2008, Economia, p. 26
AMEAÇA GLOBAL: Fertilizantes tiveram reajuste de 70% nos últimos meses
Presidente diz que país é tratado como "patinho feio" por produzir etanol
BRASÍLIA. As sucessivas altas do preço do petróleo no mercado internacional - que na terça-feira fechou perto de US$120 o barril - encareceram os custos de produção e já tiveram impacto de 15% a 20% nos preços dos alimentos, segundo estimativa do ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. Essa relação entre o preço do petróleo e os produtos básicos, cuja corrente de transmissão é formada por frete, insumos e fertilizantes mais caros, tem servido de munição para que o governo brasileiro responda às críticas aos biocombustíveis.
Foi o que aconteceu ontem, em cerimônia no Palácio do Planalto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou os críticos de serem levianos, por estarem se sentindo incomodados com o aumento da importância do Brasil como grande produtor de alimentos, etanol e biodiesel:
- As pessoas começam a ficar incomodadas com o Brasil, e muito incomodadas. Eu diria, muitas vezes, até com leviandades contra o Brasil.
Petróleo fecha em US$118,30, alta de 0,19%
Lula lembrou que, em reuniões em organismos multilaterais, o Brasil sofre acusações, de desmatamento a trabalho escravo, e que, agora, a novidade são os biocombustíveis:
- O que é engraçado é que essas pessoas que estão criticando os biocombustíveis e que estão preocupadas com o preço do alimento nunca fizeram uma crítica ao preço do petróleo, que salta de US$30 para US$120. Nunca reconheceram publicamente o quanto implica, no custo do alimento, o aumento do preço do petróleo; quanto implica na produção de fertilizantes o aumento do petróleo e do gás. E tentam, com uma transferência muito simplista, fazer um debate com o qual nós não devemos nos preocupar, porque esse debate nós ganhamos. Ganhamos economicamente, ganhamos tecnologicamente, e vamos ganhar politicamente.
Ele disse que, agora que o país está produzindo cana-de-açúcar para o etanol, passou a ser tratado como "patinho feio":
- O que não podemos aceitar é que as pessoas que já tiveram todo o seu território devastado venham dizer para o Brasil o que a gente tem que fazer. É uma questão de orgulho, não é uma questão de bravata.
Stephanes lembrou que o Brasil importa, somente em adubos, 70% do que consome. Os preços dos fertilizantes tiveram reajustes de mais de 70% nos últimos meses.
- Às vezes, dá-se a impressão que o produtor é culpado pela alta de preços. Estamos perante movimentos especulativos dramáticos no mercado internacional de commodities - afirmou o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Wagner Rossi.
O preço do barril de petróleo leve americano para entrega em junho subiu 0,19% para US$118,30, com o aumento dos estoques no país em 2,4 milhões de barris na última semana. Os contratos de junho foram tomados como referência ontem, pois os referentes a maio expiraram. Na véspera, os contratos para entrega em maio bateram recorde de US$119,37 o barril.