Título: Presidente ataca mentiras deslavadas sobre o etanol
Autor: Camarotti, Gerson; Freire, Flávio
Fonte: O Globo, 26/04/2008, Economia, p. 33

Para ele, alta de alimentos é provocada por subsídios dos ricos. Amorim compara biocombustível a colesterol bom

PAULÍNIA (SP), RIO e VIENA. Num ataque direto aos Estados Unidos e à União Européia (UE), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou ontem de ¿falácia¿ e ¿mentiras deslavadas¿ as críticas de que a produção do biocombustível brasileiro seria responsável pela alta dos preços dos alimentos. Para Lula, a crise dos alimentos não é ¿coisa perigosa, mas passageira¿.

¿ Imaginar que a gente vai trocar a produção de alimentos por álcool é uma decisão medíocre, pobre de espírito e, eu diria, vergonhosa, para quem não sabe fazer uma briga comercial ou tecnológica. Não ficaremos quietos se continuarem as mentiras deslavadas sobre o etanol e o biocombustível ¿ afirmou Lula na inauguração da nova unidade da petroquímica Braskem em Paulínia, interior de São Paulo.

Pouco antes, em Campinas, ele já tinha tocado na questão:

¿ Essa alta dos alimentos não deve ser vista como uma coisa perigosa, mas passageira.

Segundo Lula, EUA e UE prejudicam a produção de alimentos de América Latina e África com seus subsídios agrícolas. E centrou fogo na relação que se tenta fazer entre a alta dos alimentos e o biocombustível.

¿ É uma falácia dizer que a produção de biocombustível é responsável pelo aumento do preço dos alimentos. Na Alemanha, ou produzem etanol de beterraba, que é muito mais caro, ou compram o etanol do Brasil, muito mais barato. Nos EUA, ou compram do Terceiro Mundo o etanol da cana, ou vai encarecer a tortilla lá no nosso querido México. Esse debate não tem nada de ideológico, é eminentemente comercial.

Para Lula, o crescimento econômico do Brasil estaria incomodando outros países:

¿ É só olhar o mapa-múndi e ver onde tem terra, sol, água e tecnologia. Eles (EUA) vão perceber que é neste gigante que ficou muito tempo adormecido, mas que agora acordou, chamado Brasil. E acordou para fazer o mundo respeitá-lo.

Ao lado de Lula, o governador José Serra classificou de absurdo o argumento de que o etanol causa a inflação mundial.

Secretário-geral da ONU pede ações imediatas

No Rio, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, engrossou o coro ao comparar o etanol ao colesterol:

¿ Etanol é como colesterol: tem o bom e o ruim. O de milho provavelmente é o ruim, mas o de cana é bom. O colesterol bom salva. Sendo de cana-de-açúcar, utilizando terras que não estão sendo direcionadas à agricultura, não substituindo culturas como arroz, milho e trigo, o etanol é solução. Contribui para reduzir a emissão de gás carbônico, para criar emprego ¿ disse Amorim, em palestra na UFRJ, ao lado do arquiteto Oscar Niemeyer.

Em discurso afinado com Lula, Amorim disse que os verdadeiros culpados pela inflação dos alimentos são os subsídios agrícolas dos países ricos. Segundo o ministro, a crise dos alimentos é global e ¿cria mais pressão para eliminar subsídios¿, discussão que se arrasta há anos na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Já o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, voltou a bater na tecla de uma crise global ontem em Viena:

¿ Essa acentuada alta do preço dos alimentos se transformou numa verdadeira crise global. Precisamos adotar ações coordenadas e imediatas em toda a comunidade internacional.

(*) Enviado especial, com agências internacionais

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