Título: Governo estuda aumentar gasolina em até 5%
Autor: Camarotti, Gerson; Freire, Flávio
Fonte: O Globo, 26/04/2008, Economia, p. 33

Lula admite defasagem de preço no Brasil. Reajuste valerá também para diesel e será anunciado a curto prazo

BRASÍLIA, PAULÍNIA (SP), RIO e NOVA YORK. A Petrobras, com o aval do Palácio do Planalto, já está fazendo os cálculos para reajustar os combustíveis derivados de petróleo no mercado brasileiro. Segundo fontes do governo anteciparam ao GLOBO, o aumento da gasolina e do óleo diesel será anunciado a curto prazo e ficará entre 3% e 5% nos preços cobrados pelas refinarias. Este foi um dos temas da conversa do presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na noite de quinta-feira, no Palácio do Planalto. Ontem, em evento em Paulínia, Lula reconheceu que há defasagem de preços entre os preços cobrados no mercado doméstico - sem reajuste há 30 meses - e no mercado internacional.

Como as distribuidoras contam com outros itens para a formação do preço ao consumidor final, o reajuste será menor nas bombas. O maior impacto deverá ser sobre o diesel. Isso porque a gasolina vendida nos postos tem adicionados à sua composição 25% de álcool, cujos preços entrarão em queda com o início da safra da cana. Também pesará o fato de o consumo de etanol já superar o de gasolina, devido ao domínio dos carros flex.

Gasolina está 22% mais barata no Brasil

Embora não tenha afirmado categoricamente que os aumentos virão - sob a alegação de que qualquer coisa que ele dissesse levaria os jornalistas a escreverem no dia seguinte que "o presidente já anunciou o aumento da gasolina" -, Lula deixou claro que o Planalto entende que a estatal está correta na avaliação de que mudou o patamar da cotação do petróleo.

- Eu não sei se vai aumentar (o preço da) gasolina. Por enquanto, não recebi nenhuma informação. Mas eu acho que temos que reconhecer que o petróleo custava US$30 o barril e hoje está em US$120. E a última vez que teve aumento da gasolina foi em 2005. Portanto, temos uma defasagem, ao mesmo tempo em que temos que olhar se o aumento de qualquer coisa na área de combustível terá implicação na inflação - disse Lula, durante inauguração da nova unidade da Braskem.

No núcleo do governo, havia um forte desconforto com o possível aumento do preço dos combustíveis, por essa ser uma medida impopular, principalmente em ano eleitoral. Mas os preços da commodity falaram mais alto. Desde meados de 2007, o petróleo experimenta forte valorização. Esta semana chegou a quase US$120 o barril. Ontem, o barril do tipo leve americano fechou com alta de 2,12%, a US$118,52, depois de ter alcançado US$119,55.

Hoje, 70% do faturamento da Petrobras são obtidos com a comercialização da gasolina, do diesel e do GLP (gás de botijão) no mercado interno. O problema é que, a despeito do aumento internacional, esses itens estão há muito sem reajuste. A gasolina e o diesel estão congelados desde outubro de 2005. Já o botijão residencial, desde janeiro de 2003.

As receitas, assim, encolheram, mas os custos de produção e operação da estatal subiram muito no período. O aluguel de uma sonda, por exemplo, passou de US$100 mil para US$400 mil por dia. O governo sabe que esse descasamento entre receitas e despesas foi um dos motivos que levaram à queda do lucro da estatal em 2007. Além disso, precisa da Petrobras com caixa forte para investir em projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) nos megacampos de petróleo recém-descobertos.

Segundo cálculos do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), a defasagem de preços é maior no diesel, que é vendido no Brasil com preços em torno de 28% menores que no mercado americano. Já a gasolina está custando cerca de 22% menos em comparação com os preços internacionais. Na opinião de Adriano Pires, do CBIE, por ser mais consumido pela população de menor renda, o GLP dificilmente terá reajustes, apesar de estar cerca de 50% mais barato do que suas cotações no mercado internacional.

Petrobras não comenta possível aumento

A Petrobras não quis comentar o encontro entre Gabrielli e Lula. O presidente da BR Distribuidora e ex-presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra, disse que ainda não foi informado sobre qualquer reajuste nos preços dos combustíveis.

- Preço de combustíveis é com a Petrobras. Quando a Petrobras anunciar um aumento, será anunciado para todo mundo de forma igual. Não há privilégio algum em relação à BR Distribuidora - disse.

O diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, também não quis comentar o assunto. Mas, ao contrário de outras ocasiões, Costa não fez o tradicional discurso de que a política da empresa é acompanhar as oscilações no mercado internacional a longo prazo e não repassá-las para o mercado interno.