Título: Lula teme que eleições municipais atrapalhem alianças em 2010
Autor: Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 04/05/2008, O País, p. 10
Partidos aliados reclamam do PT e ameaçam deflagrar guerra na base; presidente tentará manter-se distante dos problemas nas principais cidades.
BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu agir para evitar que as eleições municipais deste ano contaminem de vez as alianças para 2010 e, de quebra, afetem a governabilidade a partir de outubro. Na semana passada, o presidente foi alertado dos problemas que o comportamento do PT tem causado aos aliados, em especial ao PMDB e ao PSB. A estratégia de Lula é manter o diálogo com as cúpulas dos partidos aliados, reafirmando compromissos e parcerias, mas afastar-se das questões locais nas articulações para a eleição municipal.
Os articuladores políticos do governo e o próprio Lula estão de pé atrás após a tentativa frustrada do acordo entre PT e PSDB em Belo Horizonte, em torno de um nome do PSB, que teve, no início, o aval do presidente.
- Quanto mais o presidente Lula ficar distante das eleições deste ano, maior a probabilidade de manter todos juntos em outubro de 2010. Temos que estar preocupados com a governabilidade imediata, temos ainda dois anos e meio de mandato - diz o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro.
Na base aliada, o clima hoje promete um cenário de guerrilha. Partidos da base governista reclamam do que classificam de projeto hegemônico do PT.
- Essa eleição vai deflagrar uma guerra na base aliada. O PT não está disposto a fazer composições. Essa disputa trará mais reflexos negativos que positivos, e pode prejudicar os planos do governo de candidatura única em 2010. As seqüelas já vão começar a surgir no dia seguinte à eleição - advertiu o presidente da Fundação Ulysses Guimarães, deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS).
Nas últimas semanas, o presidente Lula teve duas conversas com o presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP). Lula deixou claro que pretende evitar uma desagregação da base nas eleições. Num dos encontros, depois de avaliar o impasse em São Paulo que levou o ex-governador Orestes Quércia (PMDB) a apoiar a reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM), em detrimento da candidatura da ministra do Turismo, Marta Suplicy (PT), Temer lembrou que o PMDB pode apoiar o PT em nove capitais. Mas que, até agora, o PT só deve apoiar o PMDB em Goiânia.
- Haverá disputa entre os partidos da base. O que o presidente Lula pediu é que os aliados não deixem que as eleições afetem a governabilidade e contaminem a sucessão presidencial. Temos que pensar em 2010 só no próximo ano - disse Michel Temer.
O Planalto sabe que o movimento mais explícito que pode acarretar distanciamento entre os aliados foi a recusa do PT nacional em apoiar em Belo Horizonte a candidatura de Márcio Lacerda (PSB), secretário estadual do governo Aécio Neves (PSDB-MG). A cúpula do PSB viu aí uma postura clara do PT de não privilegiar alianças com aliados. Isso deve consolidar a candidatura presidencial do ex-ministro e deputado Ciro Gomes (PSB-CE), que já tenta uma aproximação com o próprio Aécio, de olho no eleitorado de Minas. Sem a candidatura de Lula pela primeira vez nos últimos 20 anos, o PSB não se sente mais amarrado ao PT.
A falta de um candidato forte do PT motiva os aliados de Lula a procurar outros caminhos. A candidatura da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, não convenceu. É o caso do PMDB. No Planalto, a percepção é de que peemedebistas fazem uma jogada oportunista, ao sinalizar uma aproximação com adversários em São Paulo - o DEM de Gilberto Kassab e o PSDB de José Serra, que defende a reeleição do atual prefeito.