Título: Títulos públicos em alta para pequeno investidor
Autor: Frisch, Felipe
Fonte: O Globo, 05/05/2008, Economia, p. 19

Perspectiva de novas elevações dos juros básicos aumenta procura por papéis do governo com taxa pós-fixada.

Os ventos positivos sopram no mercado de ações com o grau de investimento recebido pelo Brasil da agência de classificação de risco Standard & Poor"s (S&P). Na quarta-feira passada, a nota de risco dos títulos do país para dívida em moeda estrangeira passou de "BB+" para "BBB-". Mas o cenário de curto e médio prazo ainda é de juros altos, com uma possível nova elevação pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) na próxima reunião, nos dias 3 e 4 de junho. Com isso, a taxa básica de juros, a Selic, hoje em 11,75% ao ano, ainda torna bastante atraente o investimento em títulos públicos.

A forma mais tradicional utilizada pelos investidores é a aplicação em fundos DI (pós-fixados, que acompanham a Selic, e compram, em geral, Letras Financeiras do Tesouro, as LFTs) e de renda fixa (prefixados, que apostam em uma taxa predeterminada e compram Letras do Tesouro Nacional, as LTNs). Mas, para fugir das taxas de administração - que chegam a 4% ao ano -, uma alternativa que tem cada vez mais adeptos é o Tesouro Direto, sistema do governo para venda de títulos públicos para pessoas físicas pela internet.

Para fazer uso dele, basta ter cadastro em uma corretora cadastrada, o agente de custódia. O investidor pode comprar a partir de um quinto de título, gastando menos de R$200 para investir, no caso dos papéis que custam menos de mil reais. As taxas cobradas pelos agentes variam de 0,10% por operação a 1% ao ano, com exceção de Bradesco e Itaú, que cobram taxa de 4% ao ano, percentuais semelhantes aos de fundos de investimento, concorrentes diretos do Tesouro Direto.

O gerente comercial da corretora Ágora, Helio Pio, diz que a insegurança do mercado, devido à crise no mercado de crédito dos EUA, e a possibilidade de aumento de juros como resposta à inflação - desde antes da sua confirmação - têm feito muitos investidores de ações migrarem para os títulos, desde março.

- Tem bastante cliente buscando títulos, não para o longo prazo, mas para manter a rentabilidade enquanto não se sente confortável para voltar para a renda variável. Não se sabe até quando vai durar a alta de juros - diz.

Demanda por títulos prefixados está em queda

Segundo ele, a procura é maior pelos títulos pós-fixados, como as LFTs, e os atrelados à inflação, as Notas do Tesouro Nacional da série B (NTNs-B), corrigidas pelo IPCA. De uma base de 35 mil clientes ativos, ele calcula, 2.600 negociam títulos no Tesouro Direto.

O operador de renda fixa Fernando Marques, da Ativa Corretora, também tem observado maior procura por títulos pós-fixados, de cerca de 70% dos clientes. Ele lembra que, com o consenso de um novo aumento de 0,5 ponto percentual na taxa Selic na reunião de junho do Copom, a procura por papéis prefixados tem caído.

O cientista social Hugo Corrêa tem algumas economias e pretende, em cinco anos, dar entrada na compra de um apartamento. Ele planeja colocar 60% em títulos públicos, por se considerar conservador, mas não sabe que papéis comprar.

- Eu escolhi o Tesouro Direto por questão de segurança. A gente tem que saber onde está aplicando. Os papéis do governo são seguros e com taxa de retorno interessante. Muitas vezes, um fundo DI não tem retorno tão bom devido às taxas de administração - diz.

Para o caso de Hugo, o administrador de investimentos Fabio Colombo recomenda distribuir metade em LFTs (pós-fixadas em taxas de juros) e metade em NTNs-B (corrigidas pelo IPCA), ambas com vencimento em cinco anos. Existem papéis com esse prazo no Tesouro.

Mas o especialista alerta que, se houver o risco de precisar resgatar antes o dinheiro, as LFTs são mais seguras. Isso porque as NTNs-B têm uma parcela prefixada e quem quiser resgatar o dinheiro antes do vencimento deverá vendê-lo nos leilões semanais de recompra do governo. E estará sujeito às condições de mercado, que podem puxar para baixo o preço dos papéis.