Título: O Brasil na rota da guerrilha
Autor:
Fonte: O Globo, 11/05/2008, O Mundo, p. 47

Fronteira mal protegida e emaranhado de rios favorecem penetração pela Amazônia

O Brasil há tempos está na rota da guerrilha colombiana, que atua especialmente na zona de fronteira, onde o policiamento no lado brasileiro é insuficiente, facilitando o uso do país como estrada de escoamento de drogas, muitas vezes utilizadas como moeda de troca por armas.

Por conta disso, a Polícia Federal tem um projeto para inaugurar uma base de operações na confluência dos rios Içá e Solimões, próximo à fronteira com a Colômbia, no oeste do Amazonas. Nos últimos anos, a PF tem apreendido em média 1,5 tonelada de cocaína a cada ano no Rio Içá, cuja cabeceira é dominada pelas Farc. A base Garatéia terá como objetivo fechar essa rota, que vem sendo explorada pela guerrilha nos últimos anos. A Polícia Federal fiscaliza a partir de bases nos pontos de entrada dos rios Solimões e Içá no Brasil, mas os traficantes de drogas furam o bloqueio pelo labirinto de igarapés e pequenos rios. A cocaína é embarcada algumas dezenas de quilômetros à frente da fronteira, levada por pequenas lanchas ou canoas. Sem outros pontos de controle, a droga chega com facilidade a Manaus, de onde segue para o resto do Brasil e o exterior.

No caminho inverso, suspeita-se que seguem armas para a guerrilha. Em 2004, a Polícia Civil do Amazonas apreendeu aproximadamente 50 mil cartuchos de munição num galpão em Manaus. Na época, o delegado-geral adjunto da polícia de Manaus, Frederico de Souza, afirmou que a munição - para fuzis AR-15, AK-47 e pistolas 9 milímetros - estava em caixas que seriam colocadas dentro de 30 tonéis de plástico branco e seria enviada pelo rio para a Colômbia. A suspeita era reforçada pelo calibre da munição. Um brasileiro e um colombiano foram presos na operação.

Também ficou claro que a fronteira é quase uma terra de ninguém, onde a guerrilha colombiana entra e sai do Brasil como bem entende para fazer ajustes de contas: somente em Tabatinga, que faz fronteira com a cidade colombiana de Leticia, ocorreram entre janeiro e maio do ano passado 26 assassinatos ligados ao narcotráfico, segundo uma comissão da Câmara de Vereadores estabelecida para investigar os crimes. Muitos dos mortos eram estrangeiros. Nos primeiros meses de 2008, quatro dos dez assassinatos ocorridos na cidade foram de estrangeiros. Segundo a Polícia Federal brasileira, a narco-guerrilha comanda a produção, a venda e o escoamento de toneladas de cocaína e dá proteção aos traficantes que atuam na região.

Recentemente uma equipe do GLOBO enviada a Tabatinga, no Amazonas, para investigar a atuação das Farc na área, revelou um enfrentamento ocorrido em 2002, quando o Exército brasileiro matou cinco integrantes da guerrilha que navegavam pelo rio Japurá, perto do Pelotão Especial de Floresta da Vila Bitencourt, na fronteira com a Colômbia.