Título: Sintonizada com Lula
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Fonte: Correio Braziliense, 10/05/2009, Política, p. 10

Governadora do Rio Grande do Norte defende candidatura de Dilma e trabalha por uma vaga no Senado

Ainda é cedo para se falar em ¿prego batido¿, mas certamente as definições para o processo eleitoral de 2010 já vêm martelando a cabeça dos políticos do Rio Grande do Norte desde as negociações da campanha de 2006. Manter compromissos firmados ou ter que se adaptar à mudança de cenário é talvez o maior dilema que permeia o pensamento dos candidatos. No caso da governadora Wilma de Faria (PSB), a questão é ainda mais complexa. Além de aguardar a orientação nacional do partido, terá que tomar uma decisão sobre sua candidatura ao Senado e ainda quem ela vai apoiar para o governo. Caso saia mesmo candidata ao Senado, como tudo indica até agora, a governadora vislumbra se mudar para Brasília em 2011. Em entrevista exclusiva ao Correio, do grupo Diários Associados ¿ que também edita o Diário de Natal, no Rio Grande do Norte, O Norte e o Diário da Borborema, na Paraíba, além do Diario de Pernambuco ¿, a governadora mostrou confiança na eleição e anunciou ser favorável ao apoio do PSB à candidatura da ministra Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto. Por outro lado, manteve o mistério sobre quem vai apoiar para o governo do estado. Wilma ainda falou sobre como o Rio Grande do Norte tem se virado para enfrentar a crise econômica e se mostrou bastante confiante na escolha de Natal como uma das cidades que vão sediar a Copa de 2014. A governadora recebeu o Correio no lançamento do novo projeto do Diário de Natal, que circula neste domingo no estado.

´´Historicamente, o PSB sempre se aliou ao PT. Mais do que nunca estamos aliados ao governo do presidente Lula``

A senhora pretende se candidatar ao Senado em 2010? Com certeza eu devo ser candidata em 2010, o partido é quem decide isso. Mas a pretensão do partido é de que eu seja candidata a senadora e eu aceito esse destino. Estarei em Brasília a partir de 2011.

A senhora deve disputar com os senadores José Agripino Maia (DEM) e Garibaldi Alves Filho (PMDB). O caminho da senhora será estar ao lado de Garibaldi, considerando declarações recentes dele? Veja bem, a gente não vai falar sobre pessoas, vamos falar sobre partidos. Então, o PSB ainda não decidiu como vai ser feita essa aliança (com o PMDB). Nós temos vários partidos que são aliados nossos hoje, que pretendemos que continuem, mas a decisão para ampliar esse leque de partidos que ficariam conosco ainda não está tomada. Nem pelo PSB nem pelo outro lado, o PMDB. Então, nós estamos esperando diálogo, isso não vai faltar. Estamos esperando o momento certo para decidir.

Nas duas últimas eleições, em 2006 e 2008, para o governo do Rio Grande do Norte e a Prefeitura de Natal, respectivamente, um fator chamou atenção: a vinda do presidente Lula. No caso da sua reeleição, a visita foi positiva. Dois anos depois, o que se viu na campanha da candidata Fátima Bezerra (PT) a prefeita é que não teve o mesmo efeito. Como a senhora, que é da base do presidente, vislumbra esse apoio, caso venha mesmo a ser candidata ao Senado? O apoio do presidente é importante. Importantíssimo. No entanto, quem ganha a eleição é o candidato.

A senhora acredita que a visibilidade nacional pesa em favor das candidaturas dos outros concorrentes a senador, Garibaldi Filho e Agripino Maia, por eles terem assumido cargos importantes no Senado? Vai ser uma disputa renhida.

Embora diga que o partido ainda não definiu os candidatos, a senhora já tem na cabeça o candidato que vai apoiar para o governo do estado. Pode falar sobre ele? O candidato que eu vou apoiar vai ser um que tenha maior perspectiva de vitória. Temos hoje alguns nomes que estão dispostos a se candidatar, inclusive um que é do meu partido, o vice-governador, Iberê Ferreira de Souza. Então, estamos aguardando o momento certo para o lançamento dessa candidatura para o governo do estado. Por enquanto, estamos dialogando, discutindo os critérios que vão nortear nossa decisão.

Mas, por exemplo, alguns governadores já estão atuando nesse sentido. A senhora vai começar a agir nessa linha quando? Eu já me reuni com três pré-candidatos ¿ ou que pretendem se candidatar ¿ e eles fizeram uma espécie de pacto. É que fiquemos unidos e que o candidato seja aquele que tiver maior perspectiva de vitória. E na promessa daquele que apresentar o melhor projeto.

Por falar em pacto, a senhora acredita que o alinhamento que houve na eleição de prefeito em 2008, em Natal, vai se repetir no próximo ano? Não tem nada decidido. Porque, inclusive, uma eleição municipal é bem diferente de uma eleição estadual. Numa eleição municipal vale muito para cada município a situação e as características dos aliados em nível municipal. Há diferenças de uma cidade para outra. Isso é natural, faz parte da cultura do povo brasileiro. Nós ainda não temos partidos fortes o suficiente para se alinharem igualmente em todos os municípios. Então, a gente fez uma aliança em Natal e a maior parte dos municípios não combinou com a aliança de Natal. Foi diferente.

A senhora se arrepende de não ter apoiado Micarla de Souza à prefeitura? Eu não posso me arrepender de nada do que faço. Agora, os erros e acertos servem como reflexão para o futuro.

A senhora tinha combinado de apoiá-la e viajou. Quando voltou, anunciou o apoio a outro candidato, o que houve nesse episódio? O que existe é que as decisões não podem ser tomadas de forma monocrática num partido democrático. E a gente tem que conversar, tem que ouvir os aliados, tem que ouvir a população, ver também o formato do governo, como ele vai acontecer. Tudo isso contribuiu para a tomada da decisão.

A senhora é do PSB, partido que é sempre citado como suporte de uma possível terceira via no plano nacional. A senhora está na linha que vai defender que o partido vai apoiar o candidato ou candidata do PT ou vai defender que a legenda tenha um nome próprio? Historicamente, o PSB sempre se aliou ao Partido dos Trabalhadores. E hoje, mais do que nunca, nós estamos totalmente aliados ao governo do presidente Lula. Então, estamos exatamente discutindo isso agora. Eu sou favorável que nós façamos uma aliança para reforçar a candidatura da ministra Dilma Rousseff. Agora, isso não invalida a discussão que eu vou ter no partido, já que eu também faço parte da executiva nacional, sobre a decisão final de que candidato vamos lançar. Se vamos lançar ou não um candidato nosso. Porque temos um nome forte, que é Ciro Gomes.

A senhora já conversou com outros governadores e governadoras do PSB para saber a opinião deles? Eles estão em dúvida. Por exemplo, o nosso presidente, o governador (de Pernambuco) Eduardo Campos, acha que o partido está alinhado ao conjunto de partidos que apoiam hoje o presidente Lula, mas considera que se discuta se é bom esse lançamento de outra candidatura da base do governo.

A senhora foi três vezes prefeita de Natal e está na metade do seu segundo mandato no governo. São 16 anos de vida pública no Executivo. O que a senhora acha que falta ainda para o Rio Grande do Norte? Qual será o desafio do próximo governador? O Rio Grande do Norte é um estado que está dentro de uma região que cresce hoje mais do que a média nacional, uma região que o povo tem buscado ultrapassar todas as adversidades com muita criatividade. O Nordeste ainda carece de infraestrutura, de muitos projetos importantes e estruturantes que possam alavancar o seu desenvolvimento. O Rio Grande do Norte não é diferente. O Rio Grande do Norte cresceu. O Rio Grande do Norte, por exemplo, hoje é autossuficiente em energia, tanto do ponto de vista da Termoaçu como energia eólica. O Rio Grande do Norte é um estado rico, que produz petróleo e gás, que tem um agronegócio forte também. Nós estamos bem, mas precisamos alavancar o desenvolvimento. O Rio Grande do Norte ainda precisa de algumas obras estruturantes, como um porto de maior calado para exportar os seus produtos, e precisa também de um aeroporto, que, por sinal, está sendo implementado agora no estado e está no PAC. Nós esperamos que ele se consolide até a nossa saída do governo.

Se a senhora for candidata, vai ter que se afastar em abril do ano que vem. Neste resto de mandato, qual a prioridade? A nossa prioridade hoje é na área de infraestrutura: saneamento básico; estradas, para ajudar no escoamento da produção e desenvolver as atividades econômicas; e na área social, a questão da educação como a melhoria do ensino médio. Também estamos desenvolvendo um trabalho no sentido de resgatar um pouco essa questão da população que vive abaixo da linha de pobreza. E o Rio Grande do Norte conseguiu resgatar isso, porque tínhamos 46% da população abaixo da linha de pobreza e hoje nós só temos 29%. Houve uma mudança muito grande e isso se deveu também ao trabalho que nós fizemos e o que o atual governo federal tem feito em função não só dos programas de assistência social, mas daqueles programas transversais que fazem um trabalho de promoção humana, tirar as pessoas de uma classe social para outra. E avançamos muito nisso quando a gente foi o estado que mais cresceu a renda domiciliar, de acordo com o IBGE. E também fomos o estado com menor índice de desnutrição e mortalidade infantil. O IDH do Rio Grande do Norte também ficou entre os dois melhores do Nordeste, assim como renda per capita. Então, nós estamos muito bem.

Como a crise econômica refletiu na receita do estado? Com relação à receita dos repasses obrigatórios, que é do fundo de participação, nós do Nordeste estamos sendo os mais penalizados porque todos os incentivos fiscais foram dados em cima do Imposto de Renda e do IPI. E são exatamente esses dois impostos que formam a base do fundo de participação. Agora, em relação aos recursos arrecadados pelo estado, que o principal imposto é o ICMS, e depois os royalties, a situação não é igual. Nós não caímos nesses três primeiros meses do ano. Agora, o mais importante também é que nós tomamos as nossas cautelas. Começamos a trabalhar essa questão da crise antes de a crise chegar realmente ao Brasil e ao Rio Grande do Norte, cortando mais as despesas de custeio. E tivemos uma série de medidas para economizar os recursos e focar nos investimentos em infraestrutura.

Como estão as articulações do governo do estado no sentido de inserir Natal como uma das sedes da Copa de 2014? O projeto que nós apresentamos, tanto à CBF como à Fifa, foi muito bom, foi muito elogiado. Nós apresentamos esse projeto com um diferencial: primeiro, mostramos que temos uma excelente rede hoteleira; mostramos que temos solução para a área de transporte de massa; e depois tivemos oito empresas ¿ nacionais e internacionais ¿ interessadas em viabilizar o projeto por intermédio de parceria público-privada. Nós estamos muito confiantes de que sejamos escolhidos. Não é fácil porque estamos concorrendo com quatro estados do Nordeste, mas Natal tem tido um destaque muito grande com relação ao projeto, com relação à participação na internet sobre as discussões do projeto.

Qual o volume de recursos previstos? Para fazer a Arena (Estádio Arena das Dunas) são R$ 300 milhões. Esse projeto se viabilizaria também por conta das parcerias público-privadas.