Título: Petróleo sem limite
Autor:
Fonte: O Globo, 10/05/2008, Economia, p. 35
AMEAÇA GLOBAL
Cotação do barril bate novo recorde, passando dos US$126. No mês, alta já é de 12%
NOVA YORK e SÃO FRANCISCO
Como vem ocorrendo sucessivamente desde o início deste mês, o preço do barril do petróleo negociado na Bolsa Mercantil de Nova York voltou ontem a superar o recorde da véspera, ultrapassando a cotação de US$126 pela primeira vez na História, antes de recuar um pouco no fechamento. Somente esta semana, o custo saltou 5% e subiu 12% desde o dia 1º. A cotação fechou em alta todos os dias do mês. As preocupações com a oferta de combustível em meio à crescente demanda pela commodity estimularam uma onda de compra por especuladores, pressionando os preços.
No fim das negociações de ontem, o barril do tipo leve americano para entrega em junho subiu 1,8%, para US$125,96. Na máxima do dia, chegou a ser cotado a US$126,25. Já na Bolsa Internacional de Petróleo, em Londres, o preço do barril do tipo Brent avançou 2,1%, para US$125,40. Num ano que começou com o mercado especulando quando o preço do petróleo alcançaria a barreira dos US$100, agora analistas já prevêem para relativamente breve um barril a US$200, considerando-se o desequilíbrio do mercado.
- As apostas numa queda (da cotação) foram descartadas, porque se materializou uma onda de compra, sobretudo de interesses especulativos - afirmou Mike Fitzpatrick, vice-presidente da MF Global.
Cartel da Opep fica sob pressão
Os investidores se viram estimulados com as interrupções de fornecimento de petróleo no Mar do Norte e na Nigéria, e também com a galopante demanda por produtos derivados de petróleo em vários países. A forte procura por diesel na Europa, associada ao uso crescente de destilados em geradores de apoio às redes de energia elétrica - sobretudo em países emergentes com forte crescimento -, reduziu enormemente os estoques de derivados, pressionando os preços.
- Os persistentes temores geopolíticos e os altos preços do combustível para calefação pressionam, mas a velocidade da alta está incontrolavelmente rápida - afirmou Tatsuo Kakeyama, analista da Kanetsu Asset Management.
Com o aumento das cotações, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) - responsável por 40% das exportações mundiais de petróleo - voltou a ficar sob pressão dos países consumidores para elevar o nível de produção. O cartel afirma que não tem controle sobre os fatores que estariam por trás da subida de preços, inclusive a especulação e a desvalorização do dólar.
Ontem, no entanto, pela primeira vez em meses, o cartel sinalizou que poderá elevar sua produção. Sinais nessa direção foram dados pela principal autoridade do setor petrolífero da Líbia, o ex-primeiro-ministro Shukri Ghanem, que sugeriu uma possível mudança de posição na Opep. Desde a última reunião do cartel, em março, a Opep vem afirmando que não há falta de petróleo no mercado e que a escalada de preços se deve à ação de especuladores. Os preços altos, segundo membros da organização, teriam mais a ver com fluxos de investimento do que com a relação entre oferta e demanda. A última vez em que a Opep elevou sua produção foi em setembro do ano passado.
Segundo analistas, o custo político do aumento do preço do petróleo - sobretudo nos EUA, que se encontram em meio à corrida presidencial - tornou delicada a posição da Opep. A expansão econômica americana diminuiu fortemente de ritmo, e a previsão é que a demanda por gasolina no país recue pela primeira vez desde 1991.
Na semana passada, o senador democrata Frank Lautenberg, de Nova Jersey, propôs uma lei que obrigaria o governo americano a agir contra as "práticas anticoncorrenciais da Opep e suas cotas de exportação de petróleo". Embora o projeto de lei tenha poucas chances de ser aprovado, ele simboliza a crescente preocupação de Washington com a conduta da Opep.
Cotação tem novo paradigma
Até o momento, o cartel tem se mostrado bastante inflexível. A próxima reunião da Opep está prevista para ocorrer apenas em setembro. Na reunião de março, os representantes da organização ignoraram o pleito do presidente dos EUA, George W. Bush, e de outros líderes de países industrializados, para elevar a produção.
- Podemos considerar a possibilidade de elevar a produção para garantir a estabilidade do mercado - afirmou Ghanem, ontem, à Bloomberg News. - Espero uma reunião antes de setembro. Não estou convocando uma, mas a apoiaria.
Para analistas, no entanto, a realidade do mercado mudou.
- Há uma avassaladora relutância em admitir que estamos simplesmente em um novo paradigma de preços e distantes de um colapso global da economia - avaliou Neal Ryan, gerente da Ryan Oil & Gas Partners. - Os preços do petróleo simplesmente não vão recuar para o patamar de US$75.