Título: Nasce uma candidata
Autor: Pereira, Merval
Fonte: O Globo, 08/05/2008, O País, p. 4
A candidatura da ministra Dilma Rousseff à Presidência da República ganhou ontem uma robustez que não tinha antes de ela entrar na sala da Comissão de Infra-estrutura do Senado para teoricamente falar sobre o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mas na prática ser colocada num pau-de-arara metafórico pela oposição para confessar que mandara fazer um dossiê contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas foi um pau-de-arara tragicamente real, no qual foi torturada durante a ditadura militar, que salvou seu depoimento e o transformou em uma demonstração de que ela tem, sim, capacidade política de ficar sob questionamento durante quase dez horas sem perder o prumo. Não tivesse ela, como revelou, resistido a outros interrogatórios nem de longe tão amenos quanto o de ontem.
É verdade que em determinados momentos ela ficou tentada a revelar-se arrogante com os senadores, mas conteve-se a tempo. Foi flagrada pelas câmaras também com um sorrisinho irônico nos lábios, mas não houve nenhum oposicionista atento para chamar-lhe a atenção.
Se a oposição tivesse as informações necessárias a respaldar uma atitude combativa, poderia ter se aproveitado do nervosismo inicial da ministra, que teve dificuldades em pronunciar palavras e se confundiu com números.
Mas o ânimo da tropa de choque oposicionista "foi para o chão", na definição de um de seus membros, com o gol contra marcado logo aos primeiros minutos de jogo pelo líder dos Democratas, o senador José Agripino Maia, e qualquer resquício de contundência oposicionista ficou reduzido a quase nada.
Se a ministra Dilma Rousseff encontrasse no caminho do Congresso ontem pela manhã uma lâmpada mágica, e lhe fossem permitidos os tradicionais três pedidos, nem assim ela imaginaria ser possível que logo o líder dos Democratas no Senado, o agressivo oposicionista senador José Agripino Maia, fosse o responsável por proporcionar-lhe tamanha chance de alardear seu patriotismo e sua coragem na luta contra a ditadura, sob a qual o senador atuou politicamente durante tantos anos como membro da Arena e do PDS.
Ao citar uma entrevista da ministra onde ela afirmava que mentira muito quando estivera presa, Maia pediu que ela não repetisse ali na Comissão esse hábito. Foi o que bastou para a ex-guerrilheira Dilma Rousseff colocar-se num pedestal patriótico, a defender as excelências da democracia e explicar ao senador do DEM a diferença entre o impossível diálogo do torturador com o torturado, e aquele diálogo democrático que se travava ali no Senado.
Naquele, a mentira salvava vidas, neste, a verdade deve prevalecer, ensinou Dilma, ganhando aplausos da platéia governista e colocando-se de saída como vencedora do debate que ainda nem começara.
Ainda se deu ao luxo de encerrar seu discurso lembrando ao senador Agripino Maia que "certamente nós estávamos em momentos diversos de nossas vidas políticas", ressaltando com inusitada sutiliza que estavam em lados diferentes.
A mesma ditadura que nos últimos dias andou recebendo extemporâneos elogios do presidente Lula pela capacidade de planejamento do desenvolvimento, serviu para elevar a ministra Dilma Rousseff à categoria de heroína nacional, a mesma ministra que comanda o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que o governo quer fazer crer que tem a dimensão do II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) do governo Geisel.
A ministra Dilma Rousseff saiu-se vitoriosa do debate, mesmo que tenha ficado claro que o PAC nada mais é do que um amontoado de obras e investimentos que já estavam previstos ou em andamento, sem nenhum tipo de planejamento estratégico os unindo. E em muitos casos nem isso é, como demonstrou o senador Tasso Jereissati citando obras no Ceará, seu estado, que não existem; ou como o senador Heráclito Fortes mostrou, obras que já existem há anos sendo inauguradas ou lançadas como se fizessem parte dos projetos desse governo.
Mesmo que a senadora dos Democratas Kátia Abreu tenha levantado o ponto certo, o de que o PAC não acrescentou nada em termos de investimentos públicos, que representam hoje 0,9% do PIB, o mesmo que sempre representaram nos últimos dez, vinte anos.
O fato é que do ponto de vista político a ministra Dilma Rousseff teve como manter a versão oficial sobre o dossiê com despesas do ex-presidente Fernando Henrique, alegando que as informações estavam em um banco de dados no Gabinete Civil e de lá foram roubadas por alguém interessado em prejudicar não o ex-presidente, mas ela e, por extensão, o governo Lula.
Pela última versão apresentada, os dados sobre o governo tucano, assim como os relativos ao governo Lula, são armazenados burocraticamente para facilitar a fiscalização do Tribunal de Contas da União, e alguma alma perversa, digna do maior maquiavelismo, montou o dossiê com dados pinçados do banco de dados só para criar essa celeuma toda.
A versão rocambolesca prevaleceu diante de uma platéia oposicionista atônita, onde não houve um só senador para lembrar, por exemplo, que relatos anteriores ao vazamento revelaram que a própria ministra Dilma Rousseff, em jantar com empresários, havia anunciado em São Paulo que o governo estava se armando para contra-atacar a oposição na questão dos cartões corporativos. Ou que ela relutou muito até quase ser obrigada a convocar a Polícia Federal.
O depoimento de ontem serviu para reforçar a idéia de que Dilma Rousseff pode, sim, vir a ser uma boa candidata governista. Precisa apenas perder o ar demasiadamente técnico. Mas se até o intelectual Fernando Henrique Cardoso andou de jegue para se eleger presidente, não será pedir demais à ministra Dilma que se esforce para ser simpática.