Título: Fluxo de dólares ficou negativo em US$1,7 bi
Autor: Batista, Henrique Gomes; Beck, Martha
Fonte: O Globo, 08/05/2008, Economia, p. 37
Saldo comercial compensou perdas com movimento financeiro. Saída de capital ocorreu apesar de juros maiores
BRASÍLIA. O Banco Central (BC) informou ontem que o saldo das transações financeiras no fluxo cambial - diferença entre a entrada e a saída de moeda estrangeira destinada a Bolsa de Valores, fundos, títulos e investimento produtivo - foi deficitário em abril, o que não ocorria desde janeiro. A conta ficou negativa em US$1,704 bilhão, decorrente da compra de US$30,529 bilhões e da venda de US$32,233 bilhões.
O movimento dos investidores foi muito diferente do de março, quando o fluxo ficara positivo em US$1,388 bilhão. Isso ocorreu apesar da elevação da taxa básica Selic, que subiu 0,5 ponto percentual, para 11,75% ao ano. O aumento de juros é um fator de atração de aplicações. Mas a necessidade de cobrir perdas internacionais provavelmente obrigou os investidores a sacar recursos em mercados emergentes.
O resultado financeiro foi compensado pelo bom desempenho da balança comercial, que continua gerando um saldo comercial grande.
Para Nelson Carneiro, economista sênior da Austin Rating, a saída de recursos da conta financeira não preocupa. Segundo ele, isso já era esperado pelo mercado, decorrente do cenário internacional. Ele acredita que os dólares que virão - mesmo não sendo muitos - podem compensar a retirada que alguns investidores terão de fazer para compensar perdas externas.
Leonardo Miceli, economista da consultoria Tendências, concorda com a avaliação de Carneiro. Ele acredita que a saída líquida em abril derruba, em parte, a tese de que o país atrai mais capital graças aos juros elevados, que subiram ainda mais no mês passado.
- Já tínhamos juros muito altos e mesmo assim saiu capital. O investimento de curto prazo olha para outras variáveis e por isso minimizamos o efeito da nova classificação do Brasil como grau de investimento. Mas, se o cenário se mantiver, é provável que a elevação dos juros atraia algum capital para o Brasil - afirmou.
Preocupação maior com desempenho de exportações
O desafio de calibrar taxa de juros, taxa de câmbio e crescimento não é fácil. Segundo técnicos da área econômica, o Ministério da Fazenda estaria mais preocupado em manter o câmbio estável do que em valorizar o dólar em relação ao real. Por isso, a Fazenda defenderia que não seria preciso adotar medidas como aumentar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) na entrada de recursos externos ou fazer controle de capitais.
A avaliação da Fazenda é que, no atual patamar, o câmbio realmente prejudica as exportações. Mas, para tentar minimizar esses efeitos, o governo confia na política industrial, que trará medidas para dar mais competitividade às empresas que querem vender no exterior.
- Existem três tipos de controle de capital. Um é o controle de saída, que não dá certo porque o cara consegue tirar o dinheiro de outras maneiras. Outro é na entrada, em que nós já instituímos um IOF. O outro é por meio de um controle prudencial, que também já existe no Brasil - disse um técnico. - O câmbio não é uma preocupação pelo fato de o dólar estar mais desvalorizado que o real. Temos que ver o equilíbrio. E sabemos que o câmbio não está oscilando. E temos que ver a relação entre a taxa de crescimento das exportações e a taxa de crescimento das importações. Nesse sentido, estamos trabalhando na política industrial - acrescentou.