Título: Para ambientalistas, saída de Marina é um retrocesso
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Fonte: O Globo, 14/05/2008, O País, p. 5

"Foi a crônica de uma morte anunciada", diz diretor do Greenpeace

RIO, SÃO PAULO e BRASÍLIA. A queda da ministra Marina Silva foi recebida com pesar por representantes de entidades ambientalistas, como o Greenpeace e a Conservação Internacional, e por políticos. Para eles, a notícia representa um retrocesso para o Brasil na área ambiental e demonstra que o presidente Lula não soube administrar as crescentes tensões entre o Ministério do Meio Ambiente e os outros setores do governo.

- Se você fizer uma análise da política ambiental do governo Lula, vai ver que a queda da ministra Marina Silva foi a crônica de uma morte anunciada - diz Marcelo Furtado, diretor do Greenpeace. - Da liberação dos transgênicos à construção de mais usinas nucleares, foram várias as sinalizações mostrando que a agenda ambiental não era uma prioridade e estava sendo considerada pelo governo como uma pedra no seu sapato.

De acordo com a secretária-geral da WWF-Brasil, Denise Hamú, a queda da ministra começou no ano passado, com o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento, devido à prioridade absoluta concedida às obras de infra-estrutura.

- Naquele momento a área ambiental foi carimbada como problemática, como obstáculo ao crescimento - disse.

"O rei vai ficar nu"

Para Roberto Smeraldi, diretor ONG Amigos da Terra, a saída de Marina irá revelar a verdadeira importância que o governo dá ao ambientalismo.

- Marina era um selo verde. Deu brilho ao governo, especialmente diante da comunidade internacional. Agora o real valor dado pelo governo à área ambiental sera mais transparente. O rei vai ficar nu.

Em nota, o Instituto Socioambiental prestou homenagem à "incansável batalha" da ex-seringueira. "Durante os quase seis anos à frente do ministério, Marina Silva tentou introduzir a sustentabilidade de forma transversal no governo. Sua saída é certamente uma grande perda para o governo", diz a nota.

Ao sair do Planalto, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), lamentou:

- É uma perda para o governo e para o país. Ela é um símbolo da resistência, da persistência e da luta ambiental, é uma referência importante inclusive fora do Brasil.

Para a Comissão Pastoral da Terra (CPT) Marina estava na contramão dos projetos do governo, principalmente do PAC.

- Lula só não a demitia para evitar o desgaste natural desse gesto. Ela incomodava muita gente poderosa. A sua saída é uma vitória para as grandes corporações, para os madeireiros, os grileiros, os latifundiários, que fazem pressão para ampliar áreas de plantio, e todos aqueles que não se preocupam com a floresta nem seus povos - disse José Batista Afonso, da coordenação nacional da CPT.

O Conselho Indigenista Missionário disse que está apreensivo com a saída de Marina e temeroso de retrocessos em questões ambientais e indígenas:

- Com Marina, a possibilidade de intermediação pelos povos era muito maior- disse Saulo Feitosa, secretário-adjunto do Cimi.

Já o Movimento dos Sem Terra (MST) divulgou nota dizendo que "o governo Lula está em dívida com os movimentos sociais e ambientalistas" com seu apoio ao agronegócio. O documento relaciona nove pontos que demonstrariam a opção do governo contra os movimentos, desde a liberação do milho transgênico até a falta de posicionamento do governo diante do projeto de lei do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), o chamado Floresta Zero, que reduz a área de floresta mínima de 80% para 50% na Amazônia.

O governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), lamentou o pedido de demissão da ministra e afirmou que o governo perde uma boa colaboradora.

- Ela merece todo o respeito do presidente Lula. É uma figura ímpar - disse Jaques.

A líder da bancada do PT no Senado, Ideli Salvatti (SC), admitiu ter ficado surpresa. Da tribuna, contou que telefonou para o ministro das Relações Institucionais, José Múcio, para saber os motivos da saída de Marina e ele teria dito que o governo tentaria reverter o pedido da ministra. Ideli não disfarçou a tristeza com a perda de um aliado estratégico na bancada, Sibá Machado, suplente da ex-ministra.

- Se a ministra mantiver sua decisão, a receberemos aqui de braços abertos. Mas tenho de registrar que ficaremos muito tristes com a perda de um grande companheiro, Sibá Machado.

Com a volta de Marina ao Senado, Sibá Machado (PT-AC) deverá seguir para Rio Branco, onde planeja retomar seu mestrado em geografia e economia. Ele descartou a possibilidade de disputar as eleições deste ano.

- Meu futuro a Deus pertence. Vou retomar minhas atividades e procurar um emprego.