Título: Minc era o plano B de Lula para ocupar o ministério
Autor: Damé, Luiza; Gois, Chico de
Fonte: O Globo, 15/05/2008, O País, p. 3

Presidente já cogitava que Viana não aceitaria substituir Marina Silva no comando do Meio Ambiente

BRASÍLIA. O ex-governador do Acre Jorge Viana sempre foi a primeira opção do presidente Lula para substituir Marina Silva. Mas Lula já cogitava que o petista do Acre poderia recusar o convite. Por conta disso, engatilhou o plano B: o secretário de Meio Ambiente do Rio, Carlos Minc. Mas foi surpreendido com o vazamento da notícia de que já teria sondado o nome de dele. Segundo fontes do Planalto, Lula conversou com o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), sobre a saída da ministra. Só que Cabral se adiantou e divulgou o nome sem que o Planalto tivesse decidido por Minc.

Contrariado, Lula manteve o seu plano original de tentar o que ele mesmo não considerava provável: convencer Viana a aceitar o cargo. Após a reeleição, em 2006, Lula chegou a convidar o ex-governador para o mesmo cargo, depois que percebeu sinais de que a Marina não ficaria no governo. Na ocasião, Viana recusou a proposta e Lula recompôs com Marina.

Ontem, o ex-governador usou o mesmo argumento com Lula. Numa conversa franca, Viana explicou que não poderia substituir Marina num momento em que se fazem críticas à política ambiental do governo. Embora a ex-ministra não pretenda se transformar em adversária do governo, estaria bastante magoada.

Aliado e amigo de Marina Silva, Viana teria dificuldades para assumir seu lugar e não defender pelo menos parte das posições assumidas por ela, que resistiu enquanto pôde às pressões da Casa Civil pela aceleração da liberação de licenças ambientais para obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

- Se Jorge Viana aceitasse o convite, seria uma deselegância com a Marina. Ele ficou preocupado com o desgaste político no Acre. Afinal, Marina tem um respeito enorme e um grande reconhecimento dos acreanos. O Jorge tem sensibilidade política e entendeu que seria muito delicado substituir Marina - disse a deputada acreana Perpétua Almeida (PCdoB).

Na conversa, Viana falou de questões pessoais, mas que não considerava essenciais. Com a eleição praticamente certa para o Senado em 2010, ele assumiu a presidência do Conselho da Helibrás, fabricante de helicópteros, e a vaga de conselheiro da Aracruz Celulose, com boa renda mensal.

Em relação à saída de Marina, Viana ponderou que a decisão de repassar o Plano da Amazônia Sustentável (PAS) ao ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, criou um grande problema para ela. Chegou a falar da preocupação dos ambientalistas com a gestão desse plano por Mangabeira, já que ele não conhece as particularidades da região amazônica.

Diante da negativa de Viana, Lula colocou em prática a efetivação do nome de Minc. Voltou a conversar com Cabral. Segundo um auxiliar direto, ele praticamente não tinha esperanças em relação a Viana. Mas queria fazer uma última tentativa.

A indicação de Minc foi recebida com reservas no Congresso. O presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), e a líder do PT, senadora Ideli Salvatti (SC), eram dois que mostravam preferência por Viana. Para Garibaldi, o ex-governador daria mais sustentação política ao governo. A petista admitiu que um representante da Amazônia ajudaria a reduzir o impacto negativo da saída de Marina:

- Seu nome amenizaria o impacto negativo de três episódios que tiveram impacto ruim no cenário internacional: a saída de Marina, a absolvição dos mandantes do assassinato da irmã Dorothy e os conflitos na reserva indígena Raposa Serra do Sol.

- Alguém da Amazônia falaria com mais autoridade sobre a região - disse o senador Tião Viana (PT-AC).