Título: PF: quadrilha tinha contato com cúpula do BNDES
Autor: Galhardo, Ricardo
Fonte: O Globo, 15/05/2008, O País, p. 13
Relatório da investigação mostra que presos na Operação Santa Teresa falaram de reuniões com diretores do banco
SÃO PAULO. O relatório número 10 da Polícia Federal sobre a Operação Santa Teresa afirma que a quadrilha investigada tinha contato com a cúpula do BNDES. O nome do diretor de Inclusão Social e Crédito, Elvio Lima Gaspar, aparece nas escutas telefônicas. O lobista João Pedro de Moura, ex-assessor do deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho (PDT-SP), chegou a intermediar e participar de reunião com o vice-presidente do BNDES, Armando Mariante, com empresários que pleiteavam financiamento de R$1 bilhão.
Paulinho não é investigado pela PF, por ter foro especial, mas o inquérito foi enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal) e à Procuradoria Geral da República. A quadrilha cobrava propina entre 2% e 4% para intermediar empréstimos junto ao BNDES. A investigação ¿demonstra, no mínimo, que existe contato direto da organização com a diretoria do BNDES¿, afirma a PF.
O relatório é cauteloso em relação à participação de funcionários do BNDES no esquema, mas mostra que o grupo investigado tinha trânsito no banco. ¿Não estamos afirmando que o diretor (Gaspar) está envolvido, no momento¿, diz o texto.
Segundo interceptação feita no dia 13 de dezembro, o empresário Marcos Mantovani, dono da consultora Progus, garantiu ao empresário Manuel Fernandes de Bastos Filho, o Maneco, que a liberação da primeira parcela do empréstimo de R$126 milhões para a prefeitura de Praia Grande (SP) aconteceria no ano passado. Segundo o grampo, Mantovani teria combinado com ¿Elvio, o diretor¿ a liberação. Segundo a PF, Mantovani possivelmente falava de Elvio Gaspar. A quadrilha receberia R$2,6 milhões de propina para intermediar o empréstimo. Elvio Gaspar foi a Praia Grande para a assinatura do convênio.
A reunião entre o vice-presidente do BNDES, o lobista João Pedro (preso pela PF) e os empresários Hamilton Amadeo e Santiago Crespo teria sido em 17 de abril, na sede do banco, segundo as interceptações. João Pedro precisou de três dias para agendar o encontro. Em conversas gravadas no dia 11, o lobista dizia que pediria a reunião. No dia 15 ele comunicava que Mariante os receberia no dia 17.
Amadeo e Crespo queriam empréstimo de R$1 bilhão para a construção de rodovias na Argentina e Peru. O BNDES tem linha de financiamento para investimentos no exterior.
¿A reunião foi boa, o pessoal abriu, escancarou a porta¿
Em telefonema interceptado às 18h36m do dia 17, o lobista comemora com Mantovani o resultado da reunião. ¿João Pedro diz que a reunião foi muito boa e que o pessoal abriu, escancarou a porta¿, diz o relatório da PF. ¿Foi a melhor notícia da minha vida¿, comemora Mantovani ¿ que foi preso pela PF.
Caso o empréstimo fosse concretizado, a quadrilha receberia entre R$40 milhões e R$80 milhões em apenas um negócio. O grupo também negociava um empréstimo de R$300 milhões ao frigorífico Friboi, do Mato Grosso. A confiança da quadrilha na liberação do empréstimo era tamanha que o lobista, depois da reunião com Mariante, dava como certo o dinheiro e planejava os próximos passos.
¿Foi boa a reunião, o projeto é muito bom e já tem que partir para a carta consulta¿, diz João Pedro num telefonema.
O relatório mostra que a quadrilha tentou destruir provas depois de ser alertada sobre a investigação, na véspera da operação. Em conversa no dia 23 de abril, o gerente da casa de prostituição W.E., Celso Murad, pergunta a uma mulher não identificada se ela havia limpado os computadores da boate. Murad tentou esconder documentos em um Peugeot verde, mas o veículo foi apreendido pela PF.
BNDES diz que é normal receber interessados
Questionado pelo GLOBO sobre o relatório da PF, o BNDES respondeu, por e-mail, que receber empresários interessados em empréstimos é uma das atribuições de seus funcionários. ¿Como parte de suas atividades cotidianas, funcionários do BNDES recebem interessados em apresentar projetos que poderão ou não receber apoio do Banco. Neste sentido, a ocorrência de reuniões ou de telefonemas não implica envolvimento com atividades ilícitas. Segundo a PF informou ao BNDES, não há nenhum indício de envolvimento de funcionários do Banco no esquema investigado pela Operação Santa Teresa¿, diz a nota.
O BNDES não informou se o pedido foi encaminhado.