Título: Para Planalto, Minc foi arrogante e falou demais
Autor: Camarotti, Gerson; Gois, Chico de
Fonte: O Globo, 17/05/2008, O País, p. 9
"É um ecologista de Copacabana, não conhece o Brasil", critica ruralista; "Ele emparedou Lula", elogia ambientalista
BRASÍLIA. Causou desconforto no Palácio do Planalto a primeira entrevista do novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que disse ter aceitado o convite, "em tese", depois das garantias dadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Minc chegou a dizer que, se sua passagem por Brasília der errado, ele voltará para o Rio, já que tem mandato de deputado estadual. Na avaliação de um assessor de Lula, houve um tom arrogante nas declarações de Minc.
A percepção no núcleo do governo é que Minc deveria ter sido mais cuidadoso na entrevista, dada antes mesmo da conversa pessoal com Lula, prevista para segunda-feira. Um interlocutor do presidente Lula chegou a atribuir as declarações de Minc "a seu jeito folclórico".
Ontem, no Planalto, a entrevista chegou a ser comparada com a do ex-ministro de Ciência e Tecnologia Roberto Amaral, que, em sua primeira declaração à imprensa como integrante do primeiro escalão, defendeu que o Brasil tivesse o domínio da tecnologia da bomba atômica. Mas a estratégia do governo foi a de minimizar as declarações de Minc para evitar nova polêmica na área ambiental.
- Cada um tem seu estilo. Ele estava em Paris e deu uma declaração diferente. Mas não muda nada - disse ontem o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro. - Fico feliz que esteja motivado. Marina enfrentou dificuldades e foi superando-as uma a uma.
As declarações de Minc irritaram ruralistas e agradaram a ambientalistas. Para o Greenpeace, o novo ministro, ao seu estilo, tentou marcar posição e combater uma possível sensação de vitória do agronegócio com a saída de Marina.
- Ele tem o seu estilo, mas impôs condições publicamente ao presidente Lula. Ele emparedou o presidente. Se ele chegasse ao cargo sendo visto como uma alternativa do lado de lá, teria muita dificuldade de liderar o ministério, que tem como função principal defender o meio ambiente, e não devastá-lo - disse Paulo Adário, coordenador de Amazônia do Greenpeace.
"Ele ainda não é ministro para estar tão nervoso assim"
Para ruralistas, Minc parece disposto à pirotecnia. Eles afirmam que o novo ministro não pode ter preconceito nem atuar de forma ideológica, acusação comum à ex-ministra. Na entrevista, Minc disse que "não abrirá as pernas para a Amazônia virar um quintal". Os ruralistas criticaram principalmente "a falta de conhecimento" do ministro.
O deputado Abelardo Lupion (DEM-PR), da bancada ruralista, foi ácido com Minc:
- Ele é um ecologista de Copacabana. O que se pode esperar de um sujeito que não conhece o Brasil?
Na entrevista, Minc disse que Lula não o fará pagar um "Minc leão dourado" no governo e que, se sentir que as coisas não andam como esperava, voltará à Assembléia Legislativa. O presidente da Comissão de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rodrigo Alvim, criticou:
- Ele ainda não é ministro para estar tão nervoso assim. Primeiro é preciso tomar posse, depois, ouvir os setores envolvidos, ter boa vontade em conhecer uma causa que não conhece a fundo - sugeriu.
COLABORARAM: Alan Gripp e Cristiane Jungblut