Título: Um dólar do século passado
Autor: Rangel, Juliana
Fonte: O Globo, 17/05/2008, Economia, p. 33
Descontada inflação, moeda americana volta a patamar de janeiro de 1998. Bolsa de SP atinge nível histórico
Diante da forte entrada de investidores estrangeiros no Brasil, que levaram a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) a fechar em mais um recorde - pela primeira vez na História acima dos 72 mil pontos, com alta de 1,78% -, o dólar não resistiu. A moeda americana recuou 0,85%, para R$1,642, a menor cotação desde 20 de janeiro de 1999, mês da maxidesvalorização do real. Descontadas as inflações americana e brasileira do período, a moeda corresponderia hoje a R$1,12, segundo cálculos da MCM Consultores Associados. Ou seja, valor equivalente ao registrado em 20 de janeiro de 1998.
Segundo o gerente de câmbio da Corretora Liquidez, Francisco Carvalho, não é apenas o real que está se valorizando frente à moeda:
- O dólar está apanhando de todas as moedas, e nós apenas aproveitamos este movimento, embalados ainda pelo grau de investimento do Brasil (dado pela agência de classificação de risco Standard & Poor"s em 30 de abril), que traz recursos para a Bolsa.
O Banco Central chegou a comprar moeda no mercado à vista, como tem feito diariamente - ontem, foram US$40 milhões. Mas a quantia esteve longe de influenciar na cotação da moeda.
Empresas ligadas a "commodities" sobem
Na Europa, a movimentação da moeda americana não foi diferente. O euro teve alta de 0,84% em relação ao dólar, negociado a US$1,5584. Entre os fatores que contribuíram para a desvalorização do dólar esteve um novo recorde do barril de petróleo, que chegou a ser negociado a US$127,82 em Nova York, mas fechou a US$126,29. No Brasil, ações ligadas a commodities foram favorecidas e levaram o principal indicador da Bolsa (o índice Ibovespa) aos 72.766 pontos, com volume de negociação de R$6,869 bilhões. Foi a oitava vez no ano em que o indicador fechou em uma marca histórica. Todos os recordes aconteceram depois do grau de investimento.
As ações preferenciais (PN, sem direito a voto) da Petrobras subiram 2,20%, enquanto as ordinárias (ON) tiveram alta de 2,66%. Já as ações PN da Vale ganharam 3,13% e, as ON, 3,57%. Juntas, as duas empresas têm peso de 32,88% na composição do Ibovespa.
Segundo o gerente de Renda Variável do Modal Asset, Eduardo Roche, ações do setor de siderurgia também foram destaque. Os papéis PN da Gerdau subiram 5,06%. Os ON da CSN ganharam 2,58%. Os PN da Usiminas da série A tiveram alta de 4,13%.
O mercado também foi influenciado pela expectativa de que uma segunda agência de classificação de risco, provavelmente a Fitch, também possa dar o grau de investimento ao Brasil nos próximos dias.
Além disso, circularam entre investidores rumores de que o governo poderá elevar sua meta de superávit primário (economia para pagar juros) deste ano, atualmente em 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB, a soma de bens e serviços produzidos no país). Outro rumor que ganhou força no fim dos negócios foi o de que o Banco Central (BC) poderá elevar o volume de depósitos compulsórios exigidos dos bancos (quantias que ficam retidas no BC).
- Esta seria uma forma de limitar a quantia de dinheiro em circulação, o que poderia reduzir o tamanho da alta dos juros básicos da economia (Taxa Selic) na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do BC) - explica Roche.
Para o economista Homero Guizzo, da MCM Consultores Associados, a cotação do dólar não deverá continuar caindo frente ao real. Ele acredita que, até o fim do ano, o dólar poderá voltar a ser negociado a R$1,80.
Analistas temem prejuízo à exportação
Segundo Guizzo, o mercado deverá se ajustar por conta própria nos próximos meses, sem que haja necessidade de o governo intervir:
- O dólar a esse patamar poderá reduzir, cada vez mais, o saldo comercial do Brasil. Além disso, o déficit em conta corrente poderá se agravar em 2008 e 2009 - explica. - Esses assuntos são muito maiores que qualquer ação do governo que altere a trajetória do dólar. Assim que forem saindo dados negativos, a tendência é que a cotação volte a subir.
Para o economista, medidas como a criação do fundo soberano, que acaba influenciando o câmbio, só tendem a aumentar a volatilidade da moeda.
Já Francisco Carvalho, da Liquidez, aposta em uma queda contínua do dólar.
- Enquanto houver a expectativa de uma nova recomendação de grau de investimento e as commodities estiverem pressionadas lá fora, a moeda continuará caindo a curto prazo - diz.
Segundo ele, o dólar tende a ser negociado a R$1,63 ou R$1,62 nos próximos dias.