Título: Desafio de agradar ao Palácio e aos ambientalistas
Autor: Franco, Bernardo Mello
Fonte: O Globo, 16/05/2008, O Globo, p. 10
José Múcio admite que Minc enfrentará dificuldades no governo, assim como Marina
BRASÍLIA. A resistência de setores do governo ao pacote de medidas emergenciais para conter a alta do desmatamento na Amazônia e a insatisfação com a demora na liberação de licenças ambientais para o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), devem ser os principais desafios de Carlos Minc no ministério.
Ao longo de sua gestão, a ex-ministra Marina Silva foi tachada de intransigente e colecionou desafetos ao medir forças com colegas do alto escalão federal. Ao ocupar sua cadeira, Minc terá que encontrar uma maneira de reduzir os atritos na Esplanada sem desagradar aos ambientalistas.
O ministro de Relações Institucionais, José Múcio, admitiu que Minc enfrentará dificuldades, como ocorreu com Marina:
- Mas ele também vai superá-los, tenho certeza. As dificuldades na área ambiental são conhecidas. Essas dificuldades são mais que conhecidas, porque a consciência ecológica tem se firmado aos poucos. Mas Carlos Minc vem para somar.
Ontem, em sua primeira entrevista após deixar o cargo, Marina fez uma brincadeira com os dilemas que aguardam o sucessor:
- Conheci o Minc quando ele ainda tinha cabelo. Acho que corre o risco de perder um pouco mais agora.
Previstas num decreto assinado em dezembro pelo presidente Lula, as novas regras para a exploração econômica da Amazônia sofrem oposição declarada de governadores e parlamentares da região. Em janeiro, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, divergiu publicamente de Marina quando ela atribuiu a alta no desmatamento da floresta à expansão do agronegócio, numa análise endossada por ambientalistas. Diante da repercussão negativa, ele tentou se corrigir, dizendo que o país poderia aumentar a produção de grãos sem derrubar uma árvore. Mas o discurso continuou a ecoar nas palavras de dois governadores: Ivo Cassol, de Rondônia, e Blairo Maggi, de Mato Grosso.
Aliado com poder de influência sobre as decisões de Lula e um dos maiores produtores rurais do país, Maggi contestou os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), responsável por monitorar por satélites o ritmo de devastação da floresta. No alvo dos dois governadores estão medidas impopulares na Amazônia como a proibição de que bancos públicos emprestem dinheiro a quem desmata a floresta, instituída por resolução do Conselho Monetário Nacional. Outras regras polêmicas são o embargo a propriedades que descumprirem a lei de reserva legal e a co-responsabilização de comerciantes que fizerem negócio com fazendeiros que estiverem na lista negra do ministério.
O licenciamento das obras no PAC pode ser outro obstáculo à frente de Minc. Desde o lançamento do programa, no início do ano passado, Marina irritou Lula e a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, pela demora em liberar projetos como a construção de usinas hidrelétricas no Rio Madeira e o asfaltamento da BR-163 (Cuiabá-Santarém), que atravessa a Amazônia e permite o escoamento de boa parte da produção agrícola. Semana passada, ao depor no Senado, Dilma reclamou duas vezes do problema.