Título: Lula diz que aviação na América do Sul é 'um desastre' e ameaça criar estatal
Autor: Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 18/05/2008, Economia, p. 34
Presidente rebate crítica a etanol e afirma que petróleo é "vaca sagrada"
LIMA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que a aviação na América do Sul é "um desastre". Em discurso na capital peruana logo depois de uma reunião com o presidente do Peru, Alan García, e empresários, Lula disse que é preciso colocar a questão do transporte aéreo como uma decisão de governos e ameaçou, da parte do Brasil, criar uma empresa estatal, caso as companhias aéreas não consigam atender à crescente demanda provocada pelo aumento dos negócios na região.
- Nós temos que chegar ao Brasil, juntar os empresários da aviação civil e ter uma conversa séria com eles. Tudo o que eu não quero é que eles sejam tão inoperantes nessa área. Começa a fomentar na minha cabeça a idéia de que o Estado vai ter que fazer uma nova empresa. Não quero fazer, acho que o Estado não precisa fazer. Mas se os empresários não tiverem ousadia, vamos ter que ter ousadia pelo menos para forçá-los a fazer ou incentivá-los a fazer.
O presidente citou como exemplo a necessidade de ir até Miami antes de se chegar ao Equador, ou passar por Londres para chegar até Angola. Tudo isso, disse ele, inviabiliza a discussão de novos negócios, oportunidades e até mesmo a expansão do turismo na região e em locais de grande potencial de investimentos, como a África.
Lula, que viajou ao Peru para participar da V Reunião de Cúpula dos Chefes de Estado da União Européia, América Latina e Caribe, na última sexta-feira, reservou o dia de ontem para se dedicar ao fortalecimento das relações do Brasil com o governo peruano. Ele falou sobre os problemas da aviação civil em resposta às críticas de seu colega Alan García, que reclamou da falta de integração aérea na região.
- Precisamos de uma interoceânica aérea. É preciso aumentar o número de vôos, multiplicar o comércio aéreo e a presença dos investimentos brasileiros em meu país - disse García.
Petrobras e Braskem vão investir US$2,5 bi no Peru
Em sua visita, Lula foi acompanhado de 40 empresários de diversos setores. Entre os acordos assinados, um deles envolve Braskem, Petrobras e PetroPeru e deverá resultar em investimentos das empresas brasileiras entre US$1,5 bilhão e US$2,5 bilhões no país vizinho, segundo o diretor-presidente da Braskem, José Carlos Grubisich. O objetivo é avaliar a viabilidade técnica e econômica da implementação de uma unidade de produção de 700 mil a 1,2 milhão de toneladas de polietileno. A produção aconteceria a partir de gás natural competitivo disponível no Peru.
Entusiasmado com a visita de Lula a seu país, García aproveitou para reclamar da atenção que Lula vinha dando à Venezuela e à Argentina. Disse que o Peru, país cuja economia cresce 9% ao ano, com inflação de 4% e carga tributária de 15% é um excelente mercado para os empresários brasileiros investirem.
- Que esperamos do Brasil? Esperamos muito mais do que temos. Investimentos de US$300 milhões a US$1 bilhão em um vizinho é muito pouco. Parece que as empresas brasileiras não querem vir, Lula.
Lula deu uma explicação:
- Caro Alan, quando você tem seis filhos e chega em casa do trabalho, para ficar com eles, e percebe que um está triste por causa de algum problema na escola ou por ter brigado com a namorada, você dá mais atenção para ele. No Peru reina a paz. O Peru está bem.
O presidente aproveitou para rebater, mais uma vez, as críticas à produção de biocombustíveis que, segundo ele, não são produzidos em larga escala no mundo, ao contrário do petróleo que, ironizou Lula, é uma "vaca sagrada".
- Agora dizem que somos responsáveis pela alta dos preços dos alimentos. Mas ontem (na cúpula de chefes de Estado realizada em Lima) não vi nenhum europeu falar sobre o petróleo. O petróleo é uma vaca sagrada. Passa de US$30 a US$124 o barril e não há crítica - afirmou Lula.