Título: Lula afirma que instabilidade na América do Sul é um 'sinal de vida'
Autor: Eliane Oliveira e Luiza Damé
Fonte: O Globo, 24/05/2008, O País, p. 4

Para presidente, união regional mexerá com tabuleiro do mundo

BRASÍLIA. Ao abrir a solenidade de assinatura do tratado criando a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que as instabilidades na região são um "sinal de vida" na América do Sul. Lula disse ainda que no continente "floresce a democracia". Sem se referir às turbulências nos países vizinhos, Lula destacou que todos os governantes da região foram eleitos em pleitos democráticos e com ampla participação popular.

- A instabilidade que alguns pretendem ver em nosso continente é sinal de vida, especialmente vida política. Não há democracia sem povo nas ruas, sem confronto de idéias e propostas. Mas há tampouco democracia sem regras e diálogo - disse o presidente.

Lula afirmou que a América do Sul, unida, "mexerá com o tabuleiro do mundo". Ele aproveitou para convidar os demais países da América Latina e do Caribe a entrarem para a Unasul.

- Nossos vizinhos latinos e caribenhos estão convidados a participar dessa união, que nasce também sob o signo da diversidade e do pluralismo - afirmou.

Lula critica protecionismo de países desenvolvidos

O presidente destacou que a região passa por uma excepcional fase de crescimento econômico e, não por acaso, tornou-se um dos principais pontos de investimentos do mundo.

- Estamos superando a inércia e as resistências que, ao longo de 200 anos de vida política independente, impediram que trilhássemos juntos o caminho da unidade. Tiraremos proveito da vastidão de nosso território, banhado pelos oceanos Atlântico e Pacífico e pelo Mar do Caribe. Valorizaremos a diversidade de nossos povos e de nossas culturas.

Lula voltou a criticar o protecionismo praticado pelos países desenvolvidos. Disse que o crescimento da indústria e da agricultura e o grande potencial energético na região incomodam.

- Não nos deixemos iludir pelos argumentos daqueles que, por interesses protecionistas ou motivações geopolíticas, sentem-se incomodados com nosso crescimento - destacou.

Já ciente de que não seria criado ontem o Conselho Sul-Americano de Defesa, Lula defendeu, mesmo assim, o novo foro, que será instituído dentro de 90 dias. Citando como exemplo a Minustah (força militar da ONU voltada à reconstrução e pacificação do Haiti), o presidente afirmou que as Forças Armadas brasileiras estão comprometidas com a construção da paz. Ele propôs uma nova reunião no segundo semestre, no Brasil, para que sejam detalhados os objetivos e o funcionamento do conselho.

- Devemos articular uma visão de defesa na região fundada em valores e princípios comuns, como o respeito à soberania, à autodeterminação, à integridade territorial dos Estados e à não-intervenção em assuntos internos.

Unasul ajudará a corrigir distorções na região

Ele ressaltou que todas as decisões a serem tomadas pela Unasul terão de ser por consenso. Segundo Lula, pretende-se avançar rapidamente com projetos inovadores e de grande alcance em áreas prioritárias, como integração financeira e energética; melhora da infra-estrutura regional e das conexões rodoviárias e ferroviárias; estabelecimento de uma vigorosa agenda de cooperação em políticas sociais; e fortalecimento da cooperação educacional.

Lula destacou ainda a necessidade de trocas comerciais "justas e equilibradas", para que sejam corrigidas as assimetrias entre os países da região.

- Vamos desenvolver parcerias em setores estratégicos, como indústria aeronáutica, medicamentos e equipamentos militares - disse.