Título: Mantega: sem alimentos, inflação do Brasil é 3%
Autor: Almeida, Cássia; Melo, Liana
Fonte: O Globo, 28/05/2008, Economia, p. 25
FÓRUM NACIONAL
Ministro não descarta desonerações e afirma que, com política monetária consistente, país reage melhor à crise mundial
A inflação interna brasileira está em torno de 3%, se for retirada a alta dos alimentos, que é mundial, afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, durante palestra no XX Fórum Nacional ontem, no BNDES. O ministro garantiu que a inflação não corre o risco de ultrapassar a banda superior da meta fixada pelo governo, de 4,5% no ano, podendo subir para 6,5%. Mantega disse ainda que, se houver produtos cujos preços estejam subindo, o governo poderá reduzir tarifas de importação, como fez com o trigo.
- Estamos vivendo um choque de commodities que atinge todos os países. Mas não vejo a possibilidade de a inflação no Brasil fugir da margem de tolerância que existe na nossa meta de inflação. Em outros países já fugiu, o que mostra que o Brasil está fazendo uma política monetária mais consistente e consegue reagir melhor a crise inflacionária mundial.
Segundo Mantega, o governo trabalha para que a inflação de alimentos, que está em 12,6%, não contagie outros setores da economia. No quesito preço, o ministro elogiou o empresariado brasileiro:
- Mudou o comportamento do empresário brasileiro. No passado, aproveitava o aquecimento da economia para aumentar a margem. Agora, busca ganhar mercado.
Mantega: Lula não resiste ao fundo soberano
O ministro disse que a inflação mundial dos alimentos e a alta do petróleo estão sendo atacadas no Brasil com alta de juros e desoneração de impostos, como na gasolina e no trigo.
Mantega afirmou que a própria inflação age para conter a demanda, deixando de pressionar os índices de preços. Outro instrumento para conter a alta seria o fundo soberano, por ser formado pelo excesso de arrecadação, dinheiro que seria canalizado para o consumo:
- A própria inflação, por outro lado, também causa uma atenuação do gasto, do consumo. À medida que o cidadão gasta mais com alimentos, tem menos recursos para consumir outros gêneros.
Segundo ele, o Brasil deverá crescer 5% nos próximos anos, de maneira mais "vigorosa e equilibrada", com a classe C engordando, passando de 32% para 49%. Ele disse ainda que o Brasil tem agora um novo papel no cenário internacional:
- O Brasil passou de coadjuvante para protagonista.
O ministro negou que haja resistência do governo ao fundo soberano. Disse que o próprio presidente Lula teria determinado sua criação.
- Essas histórias de que o presidente Lula estaria em dúvida não são corretas.
Agência alerta para risco da inflação para emergentes
O senador Aloizio Mercadante (PT-SP), no entanto, afirmou, no mesmo evento, que "não é o momento de constituir nenhum fundo soberano". Para ele, a curto prazo, a principal tarefa do governo é derrotar a inflação. Aumentar o superávit primário é outra proposta.
O ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore também está convencido de que, para garantir o crescimento, é preciso adotar uma política fiscal mais austera.
O déficit em transações correntes, que alcançou o maior nível desde 1947, também poderia ser combatido com o fundo soberano, segundo Mantega. Para o ministro, a compra de dólares pelo governo para formar o fundo acabaria elevando a cotação da moeda americana, favorecendo os exportadores.
No contexto da inflação mundial, a agência de risco Fitch Ratings alertou, ontem, para o perigo do avanço da inflação nos países emergentes. O relatório traz um ranking dos países mais vulneráveis à inflação mundial, e o Brasil ficou entre os menos vulneráveis, na 40ª posição.