Título: PF: delegados tinham que abastecer caixinha
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Fonte: O Globo, 30/05/2008, O globo, p. 15

O CRIME NO PODER: Escuta telefônica mostra então chefe de Polícia dizendo a Lins que estava prejudicando colega

Segundo as investigações, policiais escolhidos para delegacias importantes eram obrigados a dar R$25 mil por mês

As investigações feitas pela Polícia Federal mostram que delegados escolhidos para chefiar delegacias importantes tinham que arrecadar até R$25 mil por mês para uma "caixinha". No inquérito, há a transcrição de uma conversa telefônica, de 2006, em que o então chefe de Polícia Civil, delegado Ricardo Hallak, diz ao seu antecessor Álvaro Lins que está retirando patrulhas e transferindo policiais da Delegacia de Meio Ambiente. Na conversa, Hallak revela que está tomando essa atitude porque os policiais se recusaram a pagar propinas para ficarem lotados na delegacia.

"Tô f... o pessoal da Meio Ambiente. Tô fazendo igual a você, meu guru", disse o então chefe de Polícia. "É mesmo, por quê?", indagou Lins. A conversa continua: "Tu acredita que o garoto de lá (delegado Rafael Menezes) disse que ia me derrubar? Mandou ofício para a Corregedoria Geral Unificada e foi derrubar o esquema para o Precioso (Roberto Precioso, então secretário de Segurança)", alegou Hallack. "Tô f... ele, igual você fazia. Tirei viatura, tô transferindo todos os policiais, só vai ficar ele e meia dúzia de gatos pingados. F... a delegacia toda. Não quero nem saber. Tô imitando meu mestre (risos)", completou Hallak.

Lins continua: "Isso mesmo, tira as viaturas mesmo. Deixa eles pedalando bicicleta. Já fiz muito isso. Não quer participar, tudo bem. Mas fica sem nada". Hallak diz: "Agora, tem que derrubar eles de lá. Você tem que falar com o Garotinho".

"A gente põe um amigo lá. Não tem problema, não"

Outra escuta, mostra, segundo a PF, Lins pedindo a Anthony Garotinho a saída do delegado, o que aconteceu. Na época, Lins não era mais chefe de Polícia Civil, pois já estava concorrendo ao cargo de deputado. "Aquele negócio que a gente falou daquele delegado, tem que trocar rápido, meu amigo. O cara já passou do...", diz Garotinho. Lins concorda: "Eu cobrei aquele dia que a gente teve aí. Cobrei. Mas os caras têm medo de fazer... que eu não entendo, pô!".

O ex-governador resolve puxar para si a responsabilidade: "Então, deixa que eu vou mandar fazer. Deixa aqui. Qual é o nome?" . Cuidadoso, Lins responde: "Eu falei..." Garotinho insiste: "Qual o nome do cara que eu não lembro mais?" O ex-chefe de Polícia pergunta: "O que tá lá?" Garotinho diz que sim, mas Lins prefere se encontrar pessoalmente com o ex-governador. Garotinho e Lins combinam um encontro meia hora depois, mas o ex-governador pede que o delegado não se esqueça de levar o nome: "Você traz o nome do cara?" Lins diz que sim: "A gente põe um amigo lá. Não tem problema, não".

- Os delegados eram colocados com o compromisso de mensalmente fazer um repasse que ajudava não só no enriquecimento da quadrilha, mas até mesmo em campanhas políticas - afirmou o superintendente de Polícia Federal do Rio, delegado Valdinho Jacinto Caetano.

Em entrevista coletiva realizada ontem, o advogado de Garotinho, Sérgio Mazzilo, desqualificou as denúncias. Ele alegou que a exoneração do delegado de Meio Ambiente citado nas investigações da Polícia Federal não tem relação com atividades ilícitas.

- Há uma referência à Delegacia do Meio Ambiente, disseram que a troca do delegado atenderia a interesses escusos. É justamente o contrário: na época, ele foi trocado por determinação de Garotinho porque o governador recebeu da Firjan uma denúncia de que aquele delegado não estaria exercendo as suas funções corretamente. A denúncia não me parece substanciosa.

No entanto, segundo documento apresentado pela Firjan, a denúncia ao governador teria sido feita em 2003. Já a escuta em que Garotinho aparece discutindo a escolha de um delegado de Meio Ambiente é de 2006.

O documento da Firjan relata uma denúncia da Tribel (Tratamento de Resíduos Industriais de Belford Roxo S.A.), da Bayer, de uma operação realizada naquele mês pela Delegacia de Meio Ambiente, supostamente sem a apresentação de documentos de identificação dos policiais e de mandado judicial. A Firjan encaminhou a denúncia da empresa a Garotinho no dia 3 de dezembro de 2003.

Advogados de Garotinho pediram declaração à Firjan

No mês passado, os advogados de Garotinho solicitaram à Firjan uma declaração de que a Tribel teria pedido que as denúncias fossem levadas ao conhecimento do então secretário estadual de Segurança. Na declaração, consta ainda que, no dia 5 de fevereiro de 2004, a Firjan teria participado de uma reunião com Garotinho e representantes da Bayer e da Tribel para falar sobre o assunto.

Mazzilo disse que o ex-governador não é chefe de quadrilha, mas sim "homem de bem, um político conhecido, que não enriqueceu às custas de sua atividade". Alega que acusar o seu cliente de formação de quadrilha armada é um "tecnicismo":

- Ele não consegue usar nem uma atiradeira, mas, como os denunciados são policiais, que em função do ofício andam armados, usam essa expressão. Ele não é bandido, não chefia quadrilha, muito menos uma quadrilha armada.