Título: O poderoso Garotinho
Autor:
Fonte: O Globo, 30/05/2008, O globo, p. 14
O CRIME NO PODER
MP denuncia ex-governador como chefe político de quadrilha armada e PF prende ex-chefe de Polícia
O ex-governador Anthony Garotinho, atual presidente regional do PMDB, foi denunciado pela Procuradoria Regional da República no Rio por formação de quadrilha armada. É a primeira vez que um governador ou ex-governador do Rio é denunciado por um crime. Segundo a acusação, Garotinho garantia politicamente a manutenção de uma organização criminosa que tinha como chefe o delegado Álvaro Lins, então chefe de Polícia Civil e atual deputado estadual (PMDB), que foi preso ontem em flagrante pela Polícia Federal. Também foi decretada a prisão de outras nove pessoas, entre elas outro ex-chefe de Polícia Civil, o delegado Ricardo Hallak. De acordo com o inquérito, a quadrilha usava a estrutura da Secretaria de Segurança para dar proteção à máfia dos caça-níqueis e manter um esquema de cobrança de propina para alimentar "caixinhas" em delegacias.
Álvaro foi preso em casa, em Copacabana, durante operação da Polícia Federal batizada de Segurança Pública SA. Agentes chegaram ao apartamento às 6h e deixaram o local três horas depois, levando o deputado preso, além documentos e um aparelho celular. De acordo com o superintendente da PF, Valdinho Jacinto Caetano, o parlamentar usava parentes próximos como "laranjas" e foi preso por estar dentro de um apartamento que estaria em nome de um deles e teria sido comprado com dinheiro ilícito, o que caracterizou o flagrante de ocultação de patrimônio e crime de lavagem de dinheiro. Ele foi denunciado por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha armada, facilitação de contrabando e corrupção passiva.
Foram feitas ainda buscas no gabinete de Álvaro na Assembléia Legislativa e em duas casas de Garotinho, em Laranjeiras e no município de Campos.
Também foram presos em flagrante o sogro de Álvaro, o médico Francis Bullos, e Luciana Gouveia dos Santos, ex-mulher do deputado. Eles seriam, segundo a denúncia, "laranjas" do parlamentar. Bullos foi detido em Barra Mansa, onde mora, e Luciana também em casa, no Flamengo.
Outro ex-chefe de Polícia se entrega
Tiveram a prisão decretada cautelarmente pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região, a pedido dos procuradores regionais Maurício da Rocha Ribeiro, Cristina Schwansee Romanó e Paulo Fernando Corrêa, sete policiais civis, entre eles Hallak, que substituiu Álvaro Lins na Chefia de Polícia, quando ele se licenciou do cargo para concorrer às eleições. Hallak, que se entregou à noite, é acusado de lavagem de dinheiro, formação de quadrilha armada, facilitação de contrabando e corrupção passiva. Único acusado considerado foragido é o inspetor Hélio Machado da Conceição, o Helinho.
Policiais federais prenderam também os inspetores da Polícia Civil Mário Franklin Leite Mustrange de Carvalho, o Marinho, e Alcides Campos Sodré Ferreira, o Alcides Cabeção. Na casa deste último, em Jacarepaguá, foram apreendidos documentos e R$32 mil em espécie. O delegado Luiz Carlos dos Santos, que teve sua prisão decretada e não foi encontrado em sua casa em Niterói, se apresentou no início da tarde à Polinter.
Os dez mandados incluíam ainda a prisão dos policiais Fábio Menezes de Leão, o Fabinho, e Jorge Luiz Fernandes, o Fabinho, mas eles já estão detidos desde a Operação Gladiador, desencadeada pela Polícia Federal em 2006.
- Deslumbramos a existência de uma quadrilha no Rio no âmbito da segurança pública. A quadrilha consistia em um núcleo político, com influência política no estado, que consideramos o chefe maior. O segundo na hierarquia, um chefe também de muita importância política, mas também operacional, tinha sob o seu mando vários policiais. Eles trabalhavam dando cobertura a empresários do mercado formal que praticavam sonegação fiscal e também com donos de caça-níqueis e outros jogos de azar - afirmou Valdinho Caetano.
Em entrevista coletiva concedida na tarde de ontem, os procuradores regionais Maurício da Rocha Ribeiro, Cristina Schwansee e Paulo Fernando Corrêa afirmaram não haver dúvidas sobre a participação do ex-governador na quadrilha. Segundo eles, Garotinho era o chefe político do grupo. A PF definiu o ex-governador como eminência parda do grupo chefiado por Álvaro.
De acordo com os procuradores, Garotinho sabia do esquema e permitiu que ele fosse adiante, nomeando os envolvidos para funções estratégicas na sua administração. Ainda segundo os procuradores, não há provas de que Garotinho tenha se beneficiado financeiramente das propinas e, por essa razão, não pediram a prisão do peemedebista.
- Não há provas até o momento de que o ex-governador estivesse diretamente ligado às ações criminosas cometidas por Álvaro Lins, Hallak e pela quadrilha, mas existe, sim, uma denúncia bem detalhada, que não pode ser divulgada por estar sob sigilo. Ficou comprovado que ele atuava como líder político do grupo, dando respaldo aos integrantes, principalmente durante o governo Rosinha, quando chegou a ocupar o cargo de secretário de Segurança Pública - afirmou o procurador Paulo Fernando Corrêa.
Embora o esquema tenha sido mais atuante no governo Rosinha Garotinho, segundo os procuradores não ficou provado que ela soubesse das atividades criminosas de seus assessores diretos.
- Nas investigações feitas e na análise das provas coletadas, não encontramos qualquer prova que justificasse uma denúncia contra a ex-governadora por crime tão grave - afirmou o procurador Maurício da Rocha Ribeiro.
As investigações que levaram o MPF a denunciar o ex-governador e Álvaro Lins tiveram início em 2007 e apuraram fatos do período entre 2000 e dezembro de 2007, deflagrando as operações Gladiador e Hurricane. Hallak e Alcides, segundo policiais federais, apareceram principalmente nas investigações da Hurricane em estreita ligação com os contraventores.
A denúncia do MPF foi encaminhada ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região e caberá aos 27 desembargadores decidir sobre a abertura de ação penal contra os acusados. A relatora do processo, juíza Márcia Helena Nunes, decretou a prisão cautelar dos acusados e o seqüestro dos bens do deputado Álvaro Lins. Antes que o pleno do TRF se reúna para decidir sobre a ação penal, os denunciados têm 15 dias para apresentar defesa prévia à Justiça.
O advogado Ubiratan Guedes, que defende criminalmente o delegado Álvaro Lins, informou ontem que seu cliente está sendo alvo de um erro grave e qualificou sua prisão em flagrante como uma "violência jurídica".