Título: Garotinho ensaia aproximação com Crivella
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Fonte: O Globo, 30/05/2008, O Globo, p. 18
O CRIME NO PODER: Ex-governador preside PMDB no estado mas conta apenas com 20 dos 81 delegados do partido
Isolado no partido, ex-governador, que responde a sete ações de improbidade, pensa em se licenciar do cargo
Antes da denúncia do Ministério Público Federal, Anthony Garotinho vinha tentando retomar o caminho que o levou à hegemonia política no estado por oito anos e carimbou seu passaporte para a disputa presidencial em 2002. Desde o ano passado, ele aposta numa volta à origem, num esforço hercúleo para reaver a influência no berço político - Campos, no Norte Fluminense. Tenta ainda garantir sua sobrevivência política num grande partido. Presidente regional do PMDB, não controla mais a legenda. Anteontem, Garotinho disse, em reunião na Assembléia Legislativa, que estuda se licenciar do partido para ter mais mobilidade nas eleições municipais do Rio.
Uma das opções de Garotinho é se bandear para a campanha do senador Marcelo Crivella (PRB), como informou o jornalista Ancelmo Gois em sua coluna no GLOBO. A opção já foi feita por sua filha Clarissa Matheus, pré-candidata do PMDB à vereadora. Ela e representantes da Juventude do PMDB têm sido vistos nos encontros pré-campanha de Crivella. O ex-governador chegou a ter conversas com o senador, antes de assumir a defesa da aliança com o DEM do prefeito Cesar Maia, no fim do ano passado.
No PMDB, Garotinho hoje conta apenas com 20 dos 81 delegados. O que faz dele voz solitária em momentos decisivos, como a escolha do candidato à sucessão municipal. Isolado, Garotinho recorreu ao DEM, que garantiria o apoio à pré-candidata Solange Amaral. Quando o fez, tinha o apoio do presidente da Alerj, Jorge Picciani - que agora mudou de rota, convencido pelo governador Sérgio Cabral. Picciani, que, com Cabral, tem 60% do partido, decidiu apoiar o pré-candidato do PT, Alessandro Molon. O caminho é insustentável para o ex-governador, opositor ferrenho do presidente Lula e ainda de olho num espaço nacional em 2010.
O poder de Garotinho, que elegeu a mulher, Rosinha Matheus, no primeiro turno, em 2002, encolhe drasticamente: de candidato à sucessão do presidente Lula, o que o levou a abocanhar 17,87% do eleitorado do país (15,7 milhões de votos), Garotinho passou, nas últimas eleições, a cabo eleitoral do deputado federal Geraldo Pudim, em mais uma controvertida campanha, alvo de investigação do Tribunal Regional Eleitoral.
Garotinho quer Rosinha candidata em Campos
Hoje, Garotinho luta para emplacar um candidato seu à sucessão municipal na confusa política campista. Tenta convencer a ex-governadora Rosinha Garotinho a aceitar o desafio.
Dividido entre o Rio e Campos, Garotinho agora se dedica à venda de produtos religiosos e a programas de rádio e de TV. Há dois meses, ingressou com pedido de habeas corpus preventivo no Superior Tribunal de Justiça por "receio de iminente restrição, injusta e injustificada, ao direito de locomoção". Foi na semana da Operação "Telhado de Vidro", da Polícia Federal, que levou ao afastamento do prefeito de Campos, Alexandre Mocaiber (PSB). O pedido, que também citava a operação "Gladiador" da PF, foi negado pela Desembargadora Liliane Roriz.
Dezenas de atos do ex-governador ainda são alvos de investigação pelo Ministério Público. Sete deles já viraram ações civis públicas por improbidade, que tramitam em varas de Fazenda Pública da capital. Entre elas, está a ação em que ele e a ex-governadora Benedita da Silva respondem por, em 2002, não terem cumprido a Lei de Responsabilidade Fiscal ao estourarem o orçamento do governo, deixando o caixa com um rombo de mais de R$2 bilhões. Garotinho tentou bloquear o processo no Tribunal de Justiça, mas teve recurso negado.