Título: Bilhete na mão
Autor: Leitão, Miriam
Fonte: O Globo, 30/05/2008, O globo, p. 28

O economista Octavio de Barros acha que o Brasil vive uma situação de quem ganhou na loteria: as commodities que o país exporta, depois de mais de 25 anos com os preços estagnados, dobraram ou quadruplicaram. O país usou isso para "comprar" vários avanços, mas corre o risco de perder o melhor momento ao se contentar com apenas ganhos incrementais, em vez de dar um novo salto.

O novo grau de investimento do Brasil não é apenas mais do mesmo. Com duas agências escrevendo embaixo que o Brasil é bom pagador, vários outros investidores podem vir para cá. Os maiores fundos têm limites impostos por uma regulação prudencial que estabelece que eles só podem investir em países que tenham o reconhecimento de duas agências de risco das grandes. Pois, aí está: duas delas - Standard & Poor"s e Fitch - e outras menos conhecidas, mas conceituadas, deram o selo de qualidade. A Moody"s, outra das três grandes, disse que não pensa em dar agora o grau de investimento ao Brasil.

A idéia de que este é o momento especial foi a constatação de Octavio, economista-chefe do Bradesco, ao organizar, junto com Fábio Giambiagi, do BNDES, o livro que foi lançado ontem no Rio: "Brasil globalizado". Através dele, economistas de pensamentos diferentes apontam os diversos avanços nos últimos 15 anos, em que o país estabilizou a economia, ampliou o mercado de consumo, adotou novos padrões de transparência para a política fiscal, implantou as metas de inflação e o câmbio flutuante. Independentemente da diferença de abordagem, Octavio diz que os autores pensam que o Brasil teve 15 anos de política econômica correta, apesar de todos os erros e omissões. Isso preparou o país para o ganho que representou a súbita valorização dos preços dos produtos que exporta.

- O Brasil ganhou na loteria porque é o país com a maior diversidade de commodities (entre metálicas e agrícolas) do mundo, à frente de Austrália e Estados Unidos. E houve uma gigantesca melhora de relações de troca, o que gerou uma renda (que chamamos de prêmio de loteria) que foi gasta ou investida para "comprar" a dívida externa, para "comprar" a sensação térmica agradável de um país com maior renda, para "comprar" a expansão do crédito bancário e até mesmo o grau de investimento - avalia ele.

Nem só o Brasil está tendo esse empurrão, mas alguns estão malbaratando a boa sorte. A Venezuela, por exemplo:

- Quando Hugo Chávez chegou ao poder, o petróleo custava US$9,68/barril. Hoje bate nos US$130. A Argentina também tem uma extraordinária capacidade de desperdiçar oportunidades e de jogar o bilhete premiado no lixo. Difícil de compreender como isso ocorre em um país tão bem-dotado de recursos naturais e, supostamente, educacionais.

Apesar do salto dos preços das commodities agrícolas, como mostra o gráfico, o governo está fazendo mais um pacote de ajuda aos agricultores; com perdão de dívida. Se no boom de preços eles precisam de socorro, como será se houver uma reversão qualquer nessas cotações?

Octavio acha que esse ciclo de commodities em alta - que inclui também as metálicas - é duradouro, porque puxado pelos milhões de chineses e indianos que estão sendo incorporados ao mercado. Mas certamente não durará para sempre. Por isso, ele acredita que o risco que o Brasil corre agora é o de não ter o necessário senso de urgência para fazer as reformas de que precisa para ir adiante.

Pode ser que o melhor momento já tenha até passado. A inflação mundial, como dissemos aqui neste espaço ontem, ronda as economias, e isso pode abreviar a temporada de boas novas. Os erros sucessivos de escolhas das atuais autoridades e o adiamento de mudanças que deveriam ser feitas agora, quando o país está num bom momento, podem nos levar a perder a chance.