Título: Garotinho: álibi de 2003 para denúncia de 2006
Autor:
Fonte: O Globo, 31/05/2008, Rio, p. 19

Ex-governador manteve conversa com Álvaro Lins, na qual tramaram afastamento de delegado de Meio Ambiente

O ex-governador Anthony Garotinho usou como álibi um fato de 2003 para se defender da acusação feita pelos procuradores de que ele participava da nomeação de delegados em 2006. Garotinho alega que os diálogos nos quais ele aparece conversando com ex-chefe de Polícia Civil Álvaro Lins tratavam da saída do então delegado adjunto da Delegacia de Proteção do Meio Ambiente (DPMA), Maurício Demétrio, que teria sido acusado por empresários de extorsão, em 2003. Mas, o diálogo foi gravado em 2006 e mostra que a conversa era sobre o delegado que atuava na DPMA naquele ano, Rafael Menezes.

Garotinho diz que foi procurado pela Firjan

Em entrevista ontem à Rádio Manchete, Garotinho afirmou:

"A única coisa que poderia ensejar numa dúvida em relação à minha honestidade foi o fato levantado pela Delegacia de Meio Ambiente... O rapaz que teria sido imposto pelo Álvaro Lins. Fui procurado por (...) Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, presidente da Firjan, acompanhado de um diretor da Tribel, multinacional (...). A acusação era de que um delegado (...) estava tentando extorquir, tentando tomar dinheiro da empresa. (...) Então, eu disse na presença do doutor Eduardo Eugênio: fiquem tranqüilos que o delegado será exonerado. Passaram-se uns dias e o delegado não foi exonerado", disse Garotinho.

E prosseguiu: "Descobri que ele tinha apoio de dois deputados e de outra figura importante da política do Rio daquela época. Mandei exonerar de novo. E ele foi. Quando saí da secretaria, essa mesma pessoa voltou à governadora Rosinha e, sem contar o caso, procurou o secretário da época, (Roberto) Precioso, e pediu a volta do delegado para o mesmo lugar (...). Na gravação, datada de 2006, sou eu pedindo para tirar o delegado de lá porque ele tinha voltado a fazer as mesmas coisas."

O delegado Demétrio confirmou que, em 2003, foi à empresa Tribel, do grupo Bayer, em Belford Roxo, cumprir um mandado de busca e apreensão expedido pela Justiça. Ele contou que, na ocasião, prendeu um dos diretores da empresa por desacato. Segundo o delegado, outro diretor da Bayer reclamou da ação policial com Garotinho, por intermédio da Firjan. Em seguida, ele foi transferido para uma delegacia da Baixada. Demétrio ressaltou que, se houve como Garotinho diz uma tentativa de extorsão, nenhuma investigação sobre essa denúncia foi feita. Não há contra o delegado qualquer procedimento de investigação na Corregedoria Geral Unificada:

- Se eu cometi crime, por que não fui investigado?

Um documento da Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan) enviado ao GLOBO confirma o erro cronológico. Ele foi enviado em 3 de dezembro de 2003 ao então delegado-titular da DPMA, Marco Castro, ao então procurador-geral de Justiça do Estado Antônio Vicente Costa, e ao então secretário de Segurança Anthony Garotinho, reclamando de abusos praticados por um delegado da DPMA, por conta de denúncias feitas pela ONG Greenpeace.

A Firjan também enviou cópia de uma declaração solicitada por Garotinho, em abril de 2008, referendando a reunião dele com representantes da Firjan e das empresas, em 2003, na qual as denúncias sobre a operação foram relatadas. A Bayer disse ontem, em nota, que "o pedido a Firjan foi feito em vista dos métodos empregados na ação pelas supostas autoridades."

De acordo com o Ministério Público Federal, numa conversa, gravada em 10 de novembro de 2006, Garotinho e Álvaro discutem sobre a exoneração de um delegado: "Aquele negócio que a gente falou daquele delegado, tem que trocar rápido, meu amigo. O cara já passou do...", diz o ex-governador.

Álvaro e Hallak combinaram boicote a delegado

Nessa data, o delegado da DPMA era Rafael Menezes e não Maurício Demétrio, envolvido no episódio da Bayer. Em outro diálogo, Álvaro e o então chefe de Polícia, Ricardo Hallak, já tramavam um boicote ao delegado Menezes. Hallak diz a Álvaro que, como ele não queria colaborar (supostamente com uma "caixinha"), estava tirando-lhe homens e equipamentos.

A retirada dos carros e homens da DPMA, em 2006, foi denunciada pelo delegado Menezes à Corregedoria Geral Unificada (CGU), órgão da Secretaria de Segurança Pública. Ele também teria levado a denúncia ao então secretário de Segurança, Roberto Precioso. Segundo o atual corregedor da CGU, desembargador Gustavo Kuhl Leite, a denuncia de Menezes foi analisada, mas, como não informava que havia uma tentativa de extorsão, ela foi enviada à Chefia de Polícia Civil.

- O então corregedor entendeu que era um problema administrativo, pois não havia denúncia de extorsão. Então, encaminhou para o chefe de polícia. O chefe (Ricardo Hallak, denunciado no esquema) decidiu abrir uma sindicância interna contra o delegado, mas ela já foi a arquivada - explicou Leite.

Menezes prestou depoimento à Polícia Federal, onde confirmou que sofrera uma tentativa de extorsão pela Chefia de Polícia da época.