Título: Nova meta de superávit tem pouco efeito prático, dizem especialistas
Autor: Novo, Aguinaldo; Schreiber, Mariana
Fonte: O Globo, 31/05/2008, Economia, p. 34
Nova meta de superávit tem pouco efeito prático, dizem especialistas
Economia nos 12 meses encerrados em abril já foi de 4,23% do PIB
SÃO PAULO, RIO e BRASÍLIA. O anúncio de aumento na meta de superávit primário, feito ontem pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi recebido com reservas por economistas. Apesar de marcar um compromisso oficial do governo, a elevação da meta de 3,8% para 4,3% do PIB este ano teria efeito prático nulo, pois, nos 12 meses encerrados em abril, a economia registrada já é equivalente a 4,23% do PIB. A idéia do ministro de transferir os recursos do superávit adicional para o fundo criado pelo governo também foi atacada no mercado. Para especialistas, seria uma forma de o governo postergar novos gastos, e não eliminá-los de vez.
- É claro que aumentar o superávit é positivo. Mas o governo foi tímido na medida. Em função do ciclo de crescimento econômico do país, há espaço para um aumento de pelo menos um ponto percentual - disse o economista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani.
Na sua avaliação, os R$13 bilhões com o superávit adicional prometido pelo governo poderiam ser usados na redução da dívida pública interna, com efeitos positivos para a fixação futura dos juros:
- Numa atitude mais prudente, o Banco Central (BC) usou o excedente de dólares para reduzir o passivo externo do país.
Para o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Valle, o 0,5 ponto adicional não terá efeito prático. Ele criticou ainda a proposta de criação do fundo soberano - cujo principal defensor dentro do governo é o ministro da Fazenda.
- O governo deveria aumentar a meta de superávit fiscal e pronto. Não vejo sentido no anúncio feito pelo ministro, e acho que o mercado deve receber mal a proposta - afirmou Valle. - A meta de 4,3% já iria ser alcançada naturalmente.
Valle avalia que o anúncio não deve evitar novo aumento dos juros pelo BC, preocupado com a instabilidade da inflação.
Segundo o ex-presidente do BC Carlos Langoni, o excesso de superávit primário que o Brasil tem agora deveria ser usado para reduzir a dívida pública. Isso daria ao país condições de atingir superávits nominais (após o pagamento de juros) consistentes mais rapidamente. Num segundo momento, o excesso de receita poderia ser colocado num fundo soberano.
O diretor da Nossa Caixa Joaquim Elói também considerou a nova meta insuficiente para conter a inflação e criticou o novo formato proposto para o fundo soberano. Segundo ele, não há dinheiro sobrando e o melhor seria pagar a dívida pública.
- O Mantega disse que está aumentando o superávit, mas na verdade está diminuindo. Antes, o que era economizado a mais servia para pagar dívida. Agora, vai ser gasto no ano seguinte.
Professor da PUC: medida ajuda a conter déficit
Alexandre Schwartsman, economista-chefe do Santander, lembra que o superávit já está em 4,23%, e os preços continuam subindo. Ele cobrou que o governo corte gastos:
- O ajuste fiscal não pode depender apenas da melhora pontual da arrecadação.
Já o economista da PUC-Rio Luiz Roberto Cunha considera a nova meta um apoio importante para a política monetária, principalmente por ajudar a conter as expectativas sobre o avanço da inflação. Ele afirma que a medida serve para evitar o aumento do déficit externo, pois vai reduzir a demanda interna, freando as importações.
Para o economista da UFRJ Antônio Licha, o superávit anticíclico é uma boa opção para países com dívida pública menor. Hoje, a dívida brasileira está caindo, mas ainda é mais de 40% do PIB. Quando essa taxa chegar a 30%, será um momento mais adequado para poupar, afirma.
COLABOROU Martha Beck
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